9 de mar de 2011

Entrevista com Martinho Lutero

"Lutero nasceu no dia 10 de novembro de 1483, há 516 anos, em Eislebem, na Alemanha. Nas palavras do historiador W. Walker, “é um dos homens de cuja obra se pode dizer que alterou profundamente a história do mundo”. Para Jerald Brauer, Lutero é “uma das três ou quatro maiores figuras da cristandade, talvez a maior figura profética no cristianismo ocidental pós-apostólico”. Roland Bainton, de Yale, autor de uma das melhores biografias modernas do reformador, vai além: “Lutero não é um indivíduo — ele é um fenômeno”.
Achamos por bem apresentar alguns traços de sua personalidade e algumas porções de seus ensinos aos leitores, sob a forma de perguntas e respostas, para tornar a leitura menos cansativa e mais curiosa. As frases entre aspas pertencem mesmo a Lutero. As demais, embora não sejam textualmente dele, estão plenamente de acordo com a veracidade histórica.



A descoberta da Bíblia


Quando e em que circunstâncias começou seu interesse pela Bíblia?
Fazia meu curso universitário em Erfurt quando, com a idade de 20 anos, descobri um exemplar da Bíblia, em latim, na biblioteca da escola. O primeiro trecho que li foi a história de Ana e Samuel. Até então julgava que a Bíblia continha apenas aquilo que era lido nas missas. A partir daí tornei-me assíduo leitor da Escritura. Já como sacerdote e professor, na Universidade de Wittenberg, a partir de 1508, recebi a incumbência de interpretar a Bíblia. Aprofundei-me no conhecimento dela e foi por meus estudos bíblicos que redescobri o evangelho primitivo como se encontra no Novo Testamento.


A Bíblia é a Palavra de Deus?
“A Bíblia é a Palavra de Deus, escrita por inspiração do Espírito Santo: o Velho Testamento, pelos santos profetas e o Novo Testamento, pelos santos evangelistas e apóstolos. A inspiração é o ato divino pelo qual Deus Espírito Santo soprou nas almas dos escritores da Bíblia os pensamentos que deveriam escrever, bem como as palavras exatas que deveriam empregar”.


A afixação das 95 teses à porta da Igreja do Castelo e os acontecimentos posteriores têm alguma relação com seu apego à Bíblia?
Sim. Defendi um retorno à Bíblia. Procurei demonstrar que a autoridade das Escrituras é maior que a da igreja. Esta não é dona da Bíblia, mas serva. A tradição da igreja pode ser legítima, porém não infalível; por isso deve ser julgada pela Bíblia. Em outras palavras, preguei que a Palavra de Deus é regra de fé e prática.


O Doutor é a favor de se colocar a Bíblia nas mãos do povo?
Perfeitamente. Eu mesmo traduzi o Novo Testamento do texto grego e o Velho Testamento do texto hebraico para o alemão, que todos entendem. Os 5 mil exemplares do Novo Testamento publicado em setembro de 1522 foram vendidos em três meses, de modo que em dezembro já saía uma nova edição. Muitas outras vieram depois. Tomávamos sempre o cuidado de eliminar erros tipográficos, corrigir erros de tradução ou substituir palavras por outras expressões mais convenientes. Melanchthon, especialista em grego, e Aurogallus, especialista em hebraico, ajudaram-me muito nessas revisões.


O Doutor gosta do nome luterano dado especialmente aos alemães que abraçaram a Reforma?
“Peço que se silencie acerca de meu nome e ninguém se denomine luterano, mas, sim, cristão. Quem é Lutero? A doutrina não é minha e não fui crucificado por ninguém... E como poderia ser que eu, um pobre saco de estrume, tivesse meu nome, o qual nenhuma salvação encerra, dado aos filhos de Cristo? Não deve ser assim, terminemos com esses nomes partidários e denominemo-nos cristãos, pois possuímos a doutrina de Cristo”.


O Doutor não exagera quando se diz “um pobre saco de estrume?”
Não estou exagerando nem dando uma aparência de humildade. Na verdade “sou um pobre verme diante da justiça de Deus”, “sou um pobre servo do Senhor da igreja”, “sou um aluno das Sagradas Escrituras”. O pecador não tem valor em si mesmo, não tem nada para dar, carece totalmente da glória de Deus.


Vida familiar


O Doutor é favorável ao celibato sacerdotal?
“Fazem apenas 400 anos que na Alemanha os sacerdotes foram compelidos à força a deixarem o matrimônio e fazerem voto de castidade. Todos se opuseram a isso com tamanha seriedade e rijeza, que um arcebispo de Mogúncia, o qual publicara o novo edito papal a respeito, quase foi morto no tumulto de uma revolta de todo o corpo sacerdotal. E aquela proibição logo no começo foi efetivada com tanta rapidez e impropriedade, que o papa, ao tempo, não só proibiu o matrimônio de sacerdotes para o futuro, mas ainda rompeu o casamento daqueles que havia muito já estavam nesse estado, o que não é contrário apenas a todo direito, divino, natural e civil, bem como aos cânones estabelecidos pelos próprios papas e aos mais renomados concílios”.

Uma vez desobrigado do voto do celibato sacerdotal, em vista de seu rompimento com Roma, como o Doutor encarou a idéia do matrimônio?
Aconselhei que os pastores se casassem. Os sacerdotes que aderiram à Reforma e tinham ligações com mulheres foram exortados a anunciar seu matrimônio com elas. Muitos se casaram com suas próprias cozinheiras, com as quais já viviam e das quais tinham filhos. Por esta razão, nem sempre a esposa pertencia à mesma classe social do marido.


E quanto ao Doutor?
Meus amigos sugeriram-me que eu também me casasse para quebrar o tabu e servir de exemplo. “Meus sentimentos não me pareciam levar a contrair matrimônio. E mesmo não tencionei casar porque esperava diariamente a morte e a punição por heresia”. Mas, em 12 de junho de 1525, liguei-me pelos laços do matrimônio a Catarina de Bora, da nobreza rural da Saxônia. Eu estava com 42 anos e ela, com 26. Catarina e mais oito freiras haviam fugido do convento de Nimbsch e moravam em Wittenberg desde 1523. Ela era hóspede do pintor Lucas Cranach. Desde os 10 anos até os 24, minha mulher esteve enclausurada.


Que tal o novo estado?
“Não há ligação mais doce do que a de um matrimônio feliz e não há separação mais amarga do que a de um matrimônio feliz. A isto apenas corresponde a morte de uma criança. A dor que ela nos causa, eu próprio a experimentei. A maior dádiva de Deus é uma esposa piedosa, resoluta, temente a Deus e com dotes domésticos. Graças a Deus, tal me foi concedido. Eu a considero mais do que o reino da França ou o domínio dos venezianos. Minha Catarina me é mais útil do que eu ousara pensar" .


E os filhos?“Os filhos constituem, no matrimônio, o penhor mais aprazível. Estabelecem e conservam o vínculo do amor”. Tivemos três meninas e três rapazes. Isabel faleceu com oito meses e Madalena, com 14 anos. Margarida veio a casar-se com o vice-governador Kuhnheim. Dos homens, João formou-se em Direito, Martinho é pastor, e Paulo, médico.


O casamento é para sempre?
O matrimônio é a união vitalícia instituída por Deus e contraída, mediante esponsais legítimos, entre um homem e uma mulher para uma só carne”.


Algumas pessoas que participam de seu lar em Wittenberg estão passando informações de suas conversas à mesa, no seio da família e no convívio com os numerosos estudantes que moram em sua casa. O Doutor não se preocupa com isso?
Em absoluto. Na verdade eu gosto muito de falar. Nossa casa sempre está cheia — uma tia de Catarina, vários parentes órfãos, estudantes, refugiados, ajudantes e criados moram conosco, como família. À hora da refeição conversamos animadamente sobre problemas teológicos e as novidades mais corriqueiras do dia-a-dia. De vez em quando, recordo alguma experiência passada. Mas nada há para esconder. É tudo aberto e examinado à luz da Escritura.


Fé e Obras


O Doutor foi acusado de corromper a moral cristã. O que diz sobre isso?
Nada mais falso. Os adversários, baseando-se na doutrina da justificação pela graça perdoadora de Deus, da qual me tornei pregador convicto e entusiasta, não entenderam ou deturparam meu ensino e diziam que eu tornara as boas obras desnecessárias e destituídas de significado, abrindo assim caminho para as más obras. Por outro lado, é provável que algumas pessoas imaturas tenham se valido desta interpretação errônea para se entregarem à devassidão. O que, todavia, a Palavra de Deus ensina e eu custei a descobrir é que “não podemos alcançar remissão dos pecados e justiça diante de Deus por mérito, obra e satisfação nossas, mas pela graça, por causa de Cristo, mediante a fé, quando cremos que Cristo padeceu e nos são dadas justiça e vida eterna”. A tremenda verdade da justificação pela fé diz nada mais nada menos que Deus “considera justo o homem que possui a justiça que Ele próprio, Deus, lhe oferece — a justiça de Cristo. Deus a oferece pelo Evangelho de Cristo e o homem a recebe e dela toma posse pela fé, ou seja, quando toma a sério a mensagem e crê na oferta e doação que Deus lhe está fazendo”. Temos de guardar fielmente o artigo da justificação pela fé em todos os tempos por ser o artigo principal da doutrina cristã, pela qual a igreja de Cristo se distingue de toda religião falsa, sendo dada a glória somente a Deus e constante conforto ao pecador.”


Por que o homem não pode alcançar a salvação mediante as obras, por exemplo, da própria Lei de Deus?
“Porque desde a queda no pecado, o homem natural é de todo incapaz para guardar a Lei de Deus e o próprio cristão só a cumpre imperfeitamente”.


Então, para que serve a Lei?
“A Lei serve para um fim triplo. Em primeiro lugar, concorre para a manutenção da ordem e da honestidade exterior do mundo, impedindo de certa maneira o desenfreamento grosseiro do pecado. Neste caso a Lei é freio. Em segundo lugar, ensina de modo especial aos homens a reconhecerem verdadeiramente seus pecados. Neste caso a Lei é espelho. Em terceiro lugar, mostra ao regenerado quais são verdadeiramente as boas obras. Neste caso a Lei é norma”.


O Doutor poderia situar a fé e as obras na experiência religiosa do homem?
Vamos conceituar primeiro a boa obra. Boa obra é toda obra ordenada por Deus. Se for feita da fé, é boa; se for feita para granjear méritos, é má. “A mais nobre de todas as boas obras é crer em Cristo.” Ensinamos que “as boas obras devem e têm de ser feitas não para que nelas se confie a fim de merecer a graça, mas por amor de Deus e em seu louvor”. A fé, por sua vez, “é uma confiança viva e ousada na graça de Deus, tão segura, que nela o homem poderia morrer mil vezes. A fé nos torna alegres, ousados e bem dispostos diante de Deus e de todas as criaturas.” “Sempre é a fé que apreende a graça e o perdão de pecados. E visto que pela fé é dado o Espírito Santo, o coração também se torna apto para praticar boas obras, porque antes, enquanto está sem o Espírito Santo, é demasiadamente fraco. Além disso, está no poder do diabo, que impele a pobre natureza humana a muitos pecados, como vemos nos filósofos que se lançaram à empresa de viver vida honesta e irrepreensível e contudo não conseguiram realizá-lo, caindo em muitos pecados graves e manifestos. É o que acontece ao homem quando está sem a verdadeira fé e sem o Espírito Santo, e se governa apenas pela própria força humana. Sem a fé e sem Cristo, a natureza e a capacidade humanas são por demais frágeis para praticar boas obras, invocar a Deus, ter paciência no sofrimento, amar o próximo, exercer com diligência ofícios ordenados, ser obediente, evitar maus desejos etc. Tais obras elevadas e autênticas não podem ser feitas sem o auxílio de Cristo, conforme Ele mesmo diz: ‘Sem mim nada podeis fazer’ (Jo 15.5).”


A vida cristã é estática ou dinâmica?
Não se deve “pensar que a vida de um cristão seja ficar quieto e descansar, mas estar a caminho e partir dos vícios à virtude, de clareza à clareza, de força à força”.
A oração é essencial à vida cristã?
“Como o sapateiro faz sapatos e o alfaiate faz roupas, assim deve o cristão orar. Ninguém crê quanto pode a oração senão aquele que o aprendeu pela experiência e o provou pessoalmente. É grande coisa alguém sentir o aperto e este obrigá-lo a recorrer à oração. Bem sei: todas as vezes que orei de coração, fui ricamente atendido e alcancei mais do que havia pedido. É verdade que por vezes Deus demorou um pouco, mas nem por isso deixou de me atender”.


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