6 de jun de 2011

Somos gratos pela dor?


    Por Pastor Matias                                                                                       

“Quem não foi ferido, zomba de cicatrizes”. (William Shakespeare)


Poucos são os que têm coragem de aprender com a dor. A sociedade moderna conspira contra qualquer tipo de dor. Ao menor sinal dela, temos um impressionante número de remédios para silenciá-la. Falta-nos o aprendizado que vem do gemido. Duas guerras mundiais, imagens bizarras, grotescas, doenças como “heranças” de nossas peripécias científicas, e, mesmo assim, ainda não paramos para ouvir os alarmes dessa professora do existir.


As lições da dor são as mais incríveis e intensas. Com a crise, aprendemos a dolorosa lição do limite: não somos perfeitos! Temos a consciência de que não é o fato de cobrar de mim o desempenho industrial de uma máquina que me transformará num ser robotizado. Preciso aprender a escutar o grito abafado do meu corpo clamando por uma noite de sono, um abraço ou um pedaço de pão.


Com a dor, aprendemos a amarga lição da decepção: nem todo mundo é digno de minha confiança. Serei traído – se não pelos outros, por mim mesmo – terei sempre de lembrar do conselho de Sócrates: “sê fiel a ti mesmo, e não poderás ser falso com ninguém”. Decepções ensinam a preservação dos que merecem um lugar em meu carinho. Ensinam que preciso fazer uma leitura humana que vá além das faces propostas, configuradas e belas. Ensinam o quanto é preciso um amigo.

Com a dor, aprendemos a sagrada libertação das verdades da alma: os grandes poetas, artistas, músicos, libertavam-se em tempos de crise. Atormentados pela dor produziram pérolas da interioridade artística. Poesias tinham como matéria-prima as lágrimas e os olhos vermelhos. Pinturas e esculturas nasceram após noites monstruosas de delírio e solidão. Músicas esplêndidas surgiram de soluços inexprimíveis. Ideias fascinantes foram produtos de indivíduos à beira de um colapso nervoso. A lagarta precede a borboleta fascinante.

Águias que voam também precisam pousar. Quando assimilamos as lições magníficas da dor, entendemos o chão do pouso não mais como o terreno frio das prostrações e frustrações, mas como o lugar maravilhoso do descanso. Em cada novo bater de asas, incríveis sensações. Novos horizontes se abrem para os que entendem que voar é sempre arriscado. Mas também é apaixonante!


Revolucionar a dor é sorrir do próprio fracasso. É enxugar as lágrimas, respirar fundo. Levantar-se do chão da inércia. Dizer a si mesmo que a história se faz caminhando, cruz-ando fronteiras. É torcer o pescoço da melancolia. Espancar a autocomiseração. É compreender o jogo da vida – e surpreendê-la. Poder dominar as garras da angústia e entoar o hino dos humanos.

Depois das tempestades, o ar é mais puro. Depois da longa noite, a manhã invade o calendário. Depois da dor, o abraço quente da certeza feliz de que é bom começar de novo. Agradeça às suas dores, pois, em cada uma delas, somos vence-dores!


“A dor é a marca da mortalidade”. (Dr. Paul Brand)


Fonte: Blog do Pastor Matias 

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