9 de jul de 2011

Os paradigmas subversivos do Reino



                                               Por Hermes C. Fernandes

Jesus tem muitos admiradores, porém, poucos discípulos. Tem muitos adoradores, mas poucos seguidores. Muitos chamados, poucos escolhidos.

Seguir Jesus é muito mais do que aceitar um dogma, é dispor-se a quebrar paradigmas que vêm formatando nossa civilização por milênios. 

Quero destacar aqui três destes paradigmas:

# Comparação 

 # Competição 

 # Concentração


Nossa sociedade está alicerçada sobre este tripé. Ele é, por assim dizer, a trindade comportamental que forma nosso Ego. 

Para que o Reino de Deus seja estabelecido entre os homens, há que se fazer uma limpeza no terreno antes de lançar seus fundamentos. Estes paradigmas têm que ser removidos para dar lugar a novos paradigmas, que por sua vez são centrados em Deus e no semelhante, e não no indivíduo em si.

Em lugar da comparação, complementação. Ninguém é melhor ou pior do que o outro. Se Deus desse a todos os mesmos dons e aptidões, tornaríamos como ilhas auto-suficientes. Em vez disso, Deus distribuiu dons da maneira como Lhe aprouve, para que aprendêssemos a depender uns dos outros. Portanto, é perda de tempo ficar fazendo comparações. Se sou melhor em algo, isso não me dá o direito de vangloriar-me. Certamente alguém é muito melhor do que eu em alguma outra coisa. Devemos sim, complementar uns aos outros. Se naquilo em que sou fraco, você é forte, devemos dar os braços e caminhar juntos. Meus dons não me fazem superior àquele que não os recebeu, mas me fazem seu servo. Deus confiou-os a mim para que os usasse em benefício comum. Da mesma maneira, não devo invejar aquele que recebeu o que me falta. Devo enxergá-lo como alguém a quem Deus confiou algo para me complementar. 

É da comparação que surge a competição. Queremos provar para todos o quanto somos bons e melhores do que outros. Porém, se nos livrarmos do paradigma da comparação, o paradigma da competição ficará orfão. Se nos complementamos, logo, o lugar da competição será cedido à cooperação. O que somos afetará a maneira como operamos. Somos todos dependentes uns dos outros, e por isso, devemos co-operar, trabalhar em conjunto visando um bem comum. 

E quanto ao fruto deste trabalho? Numa sociedade competitiva, o fruto deve ser concentrado nas mãos de quem produz. Mas em uma sociedade cooperativa, o paradigma da distribuição dos frutos deixa de ser a concentração para ser acomunhão. Foi isso que a igreja primitiva experimentou. Todos tinham tudo em comum. 

Não cabe ao Estado distribuir igualmente os bens entre seus cidadãos. É a consciência transformada pela graça que deve levar os cidadãos do reino a reconhecerem que tudo quanto Deus lhes proporcionou deve ser partilhado com os demais. Se não derrubarmos antes os paradigmas da comparação e da competição, jamais nos disporemos a abrir mão do ‘sagrado’ direito de concentrar bens. Por isso a sociedade é tão injusta. Seus alicerces estão carcomidos pelo egoísmo humano. 

Comunhão não é algo que se impõe, nem por autoridades eclesiásticas, nem por autoridades civis. Os crentes primitivos só se dispunham a compartilhar seus bens entre a comunidade porque “era um o coração e alma da multidão dos que criam”(At.4:32a). Portanto, não havia lugar para competitividade ou mesmo para comparações.

Quando estes sentimentos começaram a brotar, Paulo, o apóstolo, os combateu com veemência, chegando mesmo a implorar para que não permitissem que eles comprometessem a unidade original dos crentes (1 Co.1:10). Dirigindo-se aos coríntios, Paulo os acusa de serem carnais, e justifica: “Pois havendo entre vós inveja e contendas, não sois carnais, e não andais segundo os homens?” (1 Co.3:3). “Inveja” e “contendas” nada mais são do que os velhos paradigmas que têm guiado a humanidade por longas eras. Só há inveja onde haja comparação (A grama do vizinho sempre parece mais ver que a nossa). Só há contendas onde haja competição (Vamos tirar a prova e ver quem é melhor, ou quem tem a razão!).

Em posse de novos paradigmas, Paulo detona aquela fortaleza espiritual que insistia em manter-se de pé entre os cristãos de Corinto:

“Afinal de contas, quem é Paulo, e quem é Apolo, senão ministros pelos quais crestes, e isto conforme o que o Senhor deu a cada um? Eu plantei, Apolo regou, mas Deus deu o crescimento. Pelo que, nem o que planta é alguma coisa, nem o que rega, mas Deus, que dá o crescimento. Ora, o que planta e o que rega são um, e cada um receberá o seu galardão segundo o seu trabalho. Pois somos cooperadores de Deus; vós sois lavoura de Deus e edifício de Deus” (1 Co.3:5-9).

Quanta sensibilidade há neste texto paulino! Quanta humildade. Paulo deixa claro que não estava numa disputa com Apolo pela primazia daquela igreja. Eles não eram rivais, mas cooperadores. Em vez de inveja, o que havia era reconhecimento à importância do outro. Em vez de contendas, trabalho conjunto. 

Infelizmente, parece que a igreja ainda não conseguiu virar esta página, e vem recapitulando o mesmo erro dos coríntios por séculos. Urge levantar-se uma nova geração de cristãos comprometidos com os paradigmas do reino, que desprezem a feira de vaidades em que se tornou nossos ajuntamentos, e encarnem o modus vivendi de seu Mestre, Salvador e Rei.



Hermes C. Fernandes

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