24 de ago de 2011

Em boca fechada não entra mosquito!




Por Hermes C. Fernandes

Há momentos em que a melhor coisa é calar-se. Como diz a Escritura, “há tempo de estar calado, e tempo de falar” (Ec.3:7b). Aquele, sem dúvida, era um tempo para calar-se. Mesmo quando é tempo de falar, devemos nos lembrar que de toda palavra frívola que dissermos, um dia teremos que prestar contas a Deus (Mt.12:36).

Convido-os a examinar um episódio bíblico acerca de alguém que abriu a boca, quando deveria mantê-la fechada.

“Existiu no tempo de Herodes, rei da Judéia, um sacerdote chamado Zacarias, da ordem de Abias; sua mulher era das filhas de Arão, e o seu nome era Isabel. Eram ambos justos perante Deus, andando sem repreensão em todos os mandamentos e preceitos do Senhor. Mas não tinham filhos, porque Isabel era estéril, sendo ambos avançados em idade” (Lucas 1:5-7).

Imagino quantas vezes Zacarias deve ter questionado a Deus por causa da esterilidade de sua mulher. Por que, Senhor? Nós temos procurado ser irrepreensíveis diante de Ti!

Para a aquela sociedade, não havia vergonha maior do que a esterilidade. Filhos representavam a bênção de Deus sobre a vida do casal. Não tê-los era visto como uma maldição. Provavelmente, Zacarias e Isabel devam ter desistido de pedir a Deus tal concessão. Afinal, já estavam velhos, e não fazia sentido continuar rogando que Deus lhes desse um filho. Mesmo assim, Zacarias não deixou de servir a Deus como sacerdote.

“Exercendo ele o sacerdócio diante de Deus, na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no templo do Senhor para oferecer o incenso” (vv.8-9).

Naquela época os sacerdotes eram organizados por turno. O culto a Deus não poderia ser interrompido. Vinte e quatro horas por dia os sacerdotes se revezavam no Templo. Mas como havia muitos sacerdotes em cada turno, era costume lançar sorte para ver qual deles entraria no Templo para oferecer o incenso. Naquele dia, a sorte caiu sobre Zacarias.

E se ele não estivesse lá? Se achasse que já era hora de se aposentar devido à sua avançada idade? Ou se simplesmente houvesse faltado seu turno? É possível que não fosse a primeira vez que sorte lhe tenha escolhido. Mas desta vez algo surpreendente o esperava do lado de lá do santuário.

“Chegada a hora de oferecer o incenso, toda a multidão do povo estava fora, orando. Então um anjo do Senhor lhe apareceu, em pé, à direita do altar do incenso. Vendo-o, Zacarias perturbou-se, e o temor apoderou-se dele. Mas o anjo lhe disse: Zacarias, não temas. A tua oração foi ouvida. Isabel, tua mulher, dará à luz um filho, e lhe porás o nome de João. Terás prazer e alegria, e muitos se alegrarão no seu nascimento” (vv.10-14).

Às vezes, para ouvirmos a voz de Deus, precisamos nos separar da multidão. Freqüentemente, Jesus Se separava da multidão para conversar com o Pai.

A inesperada aparição angelical perturbou a Zacarias. E mais inusitado ainda foi a mensagem que o anjo lhe trouxe: A tua oração foi ouvida!

Quantos anos se passaram desde que Zacarias fizera a Deus aquela oração? E quem disse que oração tem prazo de validade? Há orações que fizemos anos atrás, e das quais já até nos esquecemos, mas que ainda serão respondidas.

A esta altura, o velho sacerdote já desistira de ser pai. Porém, Deus não desistira de lhe conceder tal prazer. Zacarias interrompeu o anjo para perguntar: “Como saberei isto? Eu sou velho, e minha mulher é avançada em idade” (v.18). Em outras palavras: - Como posso ter certeza de que isso não é uma pegadinha, ou uma piada de mau gosto? Agora já é tarde. Sua mensagem chegou com muitos anos de atraso. Talvez ele tenha pensado: - Será que me enganei? Entrei no turno errado? Não é possível que esta mensagem seja pra mim! Não! Zacarias não entrou no turno errado! O anjo não errou o endereço da mensagem! Chegara o momento determinado por Deus para que sua oração fosse atendida.

Seu questionamento lhe custou caro:

“Respondeu-lhe o anjo: Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e dar-te estas alegres novas” (v.19).

Era como se o anjo lhe dissesse: - Olha aqui, meu amigo. Assim como você estava escalado para estar aqui e agora, eu fui escalado dentre os milhões de anjos para lhe trazer esta mensagem. Não me faça perder meu tempo!

E o anjo continuou:

“E agora ficarás mudo, e não poderás falar até o dia em que estas coisas aconteçam, porque não creste nas minhas palavras, que a seu tempo se cumprirão” (v.20).

Eu fico imaginando quando Deus escolheu Gabriel para trazer a mensagem a Maria. Ele deve ter se sentido muito honrado. Mas antes que saísse em direção a Nazaré, o anjo recebeu a notícia de que fora escalado para antes levar uma mensagem a um velho sacerdote. – Ok. Lá vamos nós! Deve ter pensado o anjo. Daí, quando chega lá, o sacerdote duvida de sua palavra. – Quem este velho pensa que é? Será que ele sabe com quem está falando? Como ele se atreve a duvidar de minha palavra? Quer saber? Vou te deixar mudo por nove meses! Talvez assim você aprenda a não questionar a palavra de Deus!

E agora? Como explicar ao povo o que estava acontecendo?

“O povo estava esperando a Zacarias, e maravilhava-se de que tanto se demorasse no templo. Saindo ele, não lhes podia falar. Então entenderam que tinha visto uma visão no templo. Falava-lhes por sinais, e ficou mudo” (vv.21-22).

Por que Zacarias se demorara tanto lá? A mensagem do anjo foi rápida e objetiva. O tempo restante ele gastou imaginando que desculpa dar ao povo que esperava lá fora. E ele sequer pôde voltar pra casa depois da aparição angelical!

Provavelmente aquela era sua despedida do ofício sacerdotal, e teria que ficar ali até o fim do seu turno, pra então desfrutar de sua merecida aposentadoria. Só depois de “terminados os dias de seu ministério, voltou para sua casa” (v.23). Afobado como cru, já diziam os antigos. Se ele pôde esperar tantos anos, por que não poderia esperar alguns dias?

Mesmo ansioso pra ver a promessa cumprida (e isso mediante o cumprimento de seu dever marital), Zacarias teve que esperar. Imagine ter que exercer seu ministério sem voz!

“Depois daqueles dias Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou, dizendo: Assim me fez o Senhor, nos dias em que se dignou retirar o meu opróbrio perante os homens” (vv.24-25).

Repare nisso: Isabel percebeu o que seu marido não pôde ver. Deus não tem prazer de ficar protelando em atender nossos pedidos. Porém, Ele tem Seu próprio cronograma. Seu compromisso maior não é com nossos desejos, mas com Seus propósitos. O propósito de Deus era que o fruto do ventre de Isabel fosse aquele que prepararia o caminho para Seu Filho Jesus.

Para o velho sacerdote que já se preparava para despedir-se da vida, a questão era: Quem me sucederá? Quem dará seqüência ao meu trabalho? Mas para Deus a questão era outra: Quem precederia Seu Filho no Mundo? Quem Lhe abriria o caminho? Ele teria que nascer pouco antes de Jesus, sendo assim Seu contemporâneo.

Para Zacarias e Isabel, seu filho era apenas o cumprimento de um desejo de juventude. Mas para Deus, aquela criança seria o mais importante ser humano que passaria pela Terra.

Para eles, um desejo. Para Deus, um propósito.

Se ele nascesse anos antes, talvez morresse antes que o Messias aparecesse. Talvez jamais se encontrassem. Talvez tivesse sua cabeça em um prato muito antes que o filho de Maria fosse depositado numa manjedoura.

Os propósitos divinos são sincronizados!

Por isso, o mesmo anjo que levou a mensagem ao velho sacerdote, mal teve tempo de respirar, e seis meses depois, partiu em direção à Nazaré para anunciar a uma virgem desposada com um carpinteiro o nascimento do Salvador da Humanidade (v.26).

Se Deus respondesse as orações de Isabel em sua juventude, jamais teria havido aquele memorável encontro entre ela e Maria, em que seu nenê se mexera em seu ventre, e ela fora cheia do Espírito Santo (v.41).

“Completou-se para Isabel o tempo de dar à luz, e teve um filho. Os seus vizinhos e parentes ouviram que Deus tinha usado para com ela de grande misericórdia, e alegraram-se com ela. Ao oitavo dia foram circuncidar o menino, e queriam dar-lhe o nome de Zacarias, seu pai. Respondeu sua mãe: Não! Ele será chamado João. Disseram-lhe: Ninguém há na tua parentela que tenha este nome. Perguntaram, por acenos, ao pai do menino que nome queria que lhe dessem. Pedindo ele uma tabuinha, escreveu: O seu nome é João. E todos se admiraram. Imediatamente a boca se lhe abriu, a língua se lhe soltou e falava, louvando a Deus” (vv.57-64).

Isabel passou cinco meses escondida, talvez para evitar o embaraço de ter que explicar como uma anciã poderia ter-se engravidado. Deve ter sido difícil para ela, uma vez que seu próprio marido estava mudo. Ela passou os primeiros meses de gravidez sem ter com quem conversar, isolada de tudo e de todos. Tinha que contentar-se com uma comunicação feita por sinais.

Quando ela resolveu voltar ao convívio social, sua barriga já estava grande, pois já estava no sexto mês de gravidez. Talvez tenha sido a visita de Maria que a encorajara a sair de casa, ou a receber visitas. As pessoas começaram a comentar quão grande milagre Deus fizera na vida daquele casal de anciãos.

Finalmente, o menino nasceu. Porém, Zacarias continuou mudo. Ou talvez já até lhe houvesse sido devolvida a fala, mas ele se acostumou com a mudez.

No oitavo dia, quando foram apresentar o menino no templo, houve uma discussão sobre que nome se deveria dar a ele. A maioria achava que o melhor nome seria o do próprio pai, homenageando o velho sacerdote. Todos achavam que ele concordaria com isso.

Zacarias Junior! Aquele que seria uma extensão do seu ministério. Mas Deus tinha outros planos. Enquanto o cenário do ministério de seu pai era o templo, o cenário em que se daria seu ministério seria o deserto. Enquanto seu pai se vestia de linho fino e estola, conforme a tradição sacerdotal, ele se vestiria de pelo de camelo. Enquanto seu pai se alimentava da carne dos sacrifícios feitos no templo, ele se alimentaria de mel e gafanhoto.

Definitivamente, aquele menino não seria a continuidade do seu ministério. Era algo completamente inovador.

Depois de alguma discussão sobre o assunto, resolveram consultar o sacerdote mudo: - E aí, o que você pensa? Não acha que o menino deve levar seu nome? Sem saber como se expressar, Zacarias pediu uma tabuinha, e escreveu: - Seu nome é João!

Fora este o nome que ele ouvira dos lábios do anjo. Fora este o nome que sua mulher queria dar ao menino. Quem disse que Deus tem compromisso com a maioria? Quem disse que a voz do povo é a voz de Deus? Quando Zacarias opinou, sua fala voltou.

Agora ele estava em concordância com Deus. Seus questionamentos foram substituídos por louvores. É preferível ficar mudo a questionar os propósitos divinos. É melhor se calar do que querer impor sua própria vontade.

Quantas vezes colocamos tudo a perder com o que dizemos? Achamos que Deus nos deve explicação. Que as coisas devem acontecer à nossa maneira. Ledo engano! Deus é soberano, e sabe exatamente o que está fazendo.

Vale aqui a recomendação de Pedro:

“Se alguém fala, fale segundo as palavras de Deus...” (1 Pe.4:11).

Se não for pra falar em consonância com os oráculos de Deus, é melhor que se cale! “Aquietai-vos, e sabei que eu sou Deus!” (Sl.46:10a).

Naquele dia o velho sacerdote descobriu que é melhor contrariar a vontade da maioria, do que se levantar contra a vontade de Deus. Os únicos desejos com os quais Deus está comprometido são com aqueles que Ele mesmo gerou em nossos corações. Ele não está comprometido com nossos caprichos, com nossa vaidade, com nossos projetos particulares.

A oração de Zacarias foi respondida porque refletia o anelo de Deus.

João, o apóstolo amado, escreve em sua primeira epístola:

“Esta é a confiança que temos nele, que, se pedirmos alguma coisa, segundo a sua vontade, ele nos ouve. E, se sabemos que nos ouve em tudo o que lhe pedimos, sabemos que já alcançamos os pedidos que lhe fizemos” (1 Jo.5:14-15).

Por isso, um dos critérios para que tenhamos nossas orações atendidas, é que estamos n’Ele e a Sua Palavra esteja em nós (Jo.15:7). É por meio de Sua Palavra em nós que descobrimos a vontade do Senhor para a nossa vida. E assim, nossos pedidos serão sempre de acordo com Sua vontade. Ele terá operado em nós, tanto o querer, quanto o realizar (Fp.2:13). Teremos aprendido a nos deleitar n’Ele, para que nossos desejos coincidam com os d’Ele, e assim, sejamos plenamente atendidos (Sl.37:4).

Suas respostas vêem sempre no tempo certo. Nem antes, nem depois. Nada é capaz de alterar Seu cronograma.

Ao dar ao menino o nome ordenado por Deus, Zacarias reconheceu que João Batista era muito mais do que uma resposta às suas orações. Era a manifestação do propósito de Deus para o Mundo.

Lembre-se: Acima de nossos desejos, está o propósito de Deus.

Que sua vida seja o ventre através do qual os propósitos divinos se manifestarão.


Fonte: Hermes C. Fernandes

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