23 de ago de 2011

Pastor, como você desenha Deus?



Por Marcelo Quirino
Psicólogo clínico e Colaborador dO Jornal Batista
Talvez o pastor não saiba, mas ele é um pintor. Ele pinta um desenho para a sua congregação, e a partir desse desenho a congregação forma uma imagem mental do Deus altíssimo. Mais ainda, há o risco de a congregação conhecer Deus exclusivamente através desses desenhos.
É pela postura pastoral no púlpito que há a criação de uma representação social de Deus a partir da própria visão pastoral. Com isso, quer se dizer que o ministro seleciona, ressalta, exclui, distorce, nega ou cria características divinas de acordo com suas características pessoais.
Estranho isso? Sim. Por isso nosso desafio em oração deve ser: “Senhor, afasta-me de mim mesmo a cada dia e assemelhe-me cada vez mais ao Mestre para que eu possa pregá-lo com fidelidade aos meus irmãos”.

Desenhamos o que aprendemos a desenhar desde pequenos.

A postura pastoral tem muito a ver com a posição teológica, o histórico pessoal do pastor e da sua relação pessoal com Deus. Sua arquitetura ministerial está relacionada a experiências próprias do pastor com Deus, às teorias teológicas, à sua infância e história de vida, aos traumas e à personalidade.
Todos esses fatores podem representar fontes de distorções perceptivas baseadas em traumas, personalidade, dons, histórico de vida, aprendizagem primitivas, relacionamento com Deus e posição teológica. Eis um desafio pastoral: Lapidar-se para assemelhar-se a Cristo. Um desafio de todos, sem exceção.
Deus é o ser infinito e complexo, mas tem seus traços selecionados e sublinhados de acordo com essas características pastorais. Com isso, o Deus das ovelhas corre o risco de ser o Deus desenhado pelo pastor de acordo com suas características, histórias de vida e postura teológica.
Assim, o perfil de líderes forma um perfil ministerial que estabelece um perfil de igreja e de ovelhas de acordo com o histórico pessoal de vida. Para amenizar os efeitos negativos disso, só a vida cheia de oração, disciplina nos estudos das Escrituras, auto-avaliação ministerial, auto-correção pessoal e ministerial, introspecção com ajuda do Espírito, coragem para ouvir críticas, humildade para não misturar os próprios desejos como sendo desejos divinos, dentre outras posturas pastorais para garantir a fidelidade da mensagem.
Tudo se agrava se o ministério pastoral passa a imagem de que só através dele há relacionamento entre as ovelhas e Deus. Caso este seja o caso, haverá conseqüências negativas para a congregação local e para o Reino.
As distorções psíquicas provocam as distorções teológicas, mas somente pela humildade e disponibilidade constante para a auto-avaliação espiritual com o Espírito Santo é que o pastor diminui esse fator constituinte de qualquer personalidade humana.
Contudo, um fator de impedimento é aidéia equivocada de autoridade divina inquestionável diante da congregação. Se houver uma concepção de que autoridade não se equivoca, não se corrige, não se retifica e não volta atrás, pode ser sinal de um distúrbio de personalidade megalomaníaca e narcisista processando de forma equivocada o conceito de autoridade. Tal postura pode imobilizar, e não mobilizar, o pastor na sua busca pelo crescimento no conhecimento na graça de Cristo. Nesse caso, uma psicopatologia impede a santificação.
Querido pastor, cuidado com o que você desenha de Deus. Pois é justamente essa imagem que será absorvida pelas suas ovelhas. Se o pastor não estimula a autonomia doutrinária e o autodidatismo, as ovelhas tendem a ser formadas subjetivamente.
Crê-se biblicamente, inclusive, que a relação pessoal das ovelhas com Deus e com a Bíblia produz mais crescimento e frutos a partir de uma relação direta entre criatura e criador.
A falta de autonomia no conhecimento divino proporciona algumas conseqüências psicológicas e ministeriais negativas para o pastor. Podem-se citar algumas delas. Primeiro cria ovelhas dependentes tanto espirituais quanto ministeriais. São pessoas que não bebem direto da fonte e são pouco hábeis em resolver seus problemas ministeriais e em promover a santificação. São discípulos que constantemente dão problemas aos pastores e que aprendem muito, mas nunca chegam ao conhecimento da verdade e ou a uma estabilidade espiritual. Segundo, há o risco de os pastores criarem uma relação parasitária com suas ovelhas, o que possibilita mais estresse e problemas ministeriais a serem resolvidos. Sem poder de autonomia e pró-atividade, as ovelhas se perdem e se acham inseguras para resolverem qualquer problemática.
Em último e o mais importante, o crescimento departamental da igreja fica arrastado. Conseqüentemente, a formação de novos discípulos e o crescimento do Reino ficam comprometidos. Ovelhas sem autonomia são discípulos que não dão passos com as próprias pernas e que não visualizam oportunidades e se estagnam em suas funções e características pessoais.

Nosso desafio é um curso de desenho com o Arquiteto do mundo.

O desafio está, portanto, em discernir a visão divina dos próprios desejos e intentos para a igreja. Isso se consegue a partir do crivo bíblico neotestamentário, onde Cristo é a chave hermenêutica do Novo Testamento, e este, por sua vez, do Velho Testamento. Ao contrário da postura veterotestamentária de exclusividade de relação profeta-Deus.
Logo, para conferir às ovelhas autonomia no conhecimento de Deus, o pastor precisará de 3 posturas.
Primeiro, um estímulo direcionado da autonomia devocional de suas ovelhas. O pastor precisará demonstrar para suas ovelhas a vantagem de praticarem suas devocionais, seus estudos, sua relação com Deus, suas orações e tudo o mais. As ovelhas deverão ser desafiadas a produzir santidade e obras e frutos do Espírito Santo. Em segundo lugar, o pastor precisará pensar em longo prazo. Desenvolver autonomia nas ovelhas não é tarefa para meses, mas sim para anos. É um investimento estratégico através da EBD, do púlpito, dos aconselhamentos e da escolha correta de líderes discipulados que vão garantir o sucesso nesse empreendimento de conferir autonomia espiritual às ovelhas.
Por último, o pastor precisará acreditar na vantagem disso, até porque é bíblico. Cristo veio possibilitar aceso direto ao Pai por intermédio d’Ele. Por que então se fazer de profeta e, como no Velho Testamento, intermediara relação espiritual entre as ovelhas e Deus? As ovelhas precisam ser doutrinadas e enviadas diretamente à fonte.
Não é só do pastor que se bebe a água da vida. Ele não é poço, mas muitos líderes pecam nesse erro dramático que cria relações parasitárias entre ele e suas ovelhas.
Paulo disse para sermos seus imitadores, assim com ele era de Deus. Nunca vi a seguinte vertente de interpretação exegética, mas o sentido mais correto seria não somente imitar o que Paulo faz, mas imitar para onde ele olha, ou seja, para o Mestre. O que devemos imitar não são as atitudes de Paulo, mas o que ele faz, que é imitar o Mestre.
Portanto, devemos auto-avaliar constantemente nossos desenhos Divinos antes de oferecê-los para as ovelhas. Deve-se, acima de tudo, estimulá-las a serem desenhistas por elas mesmas a fim de alcançarem um grau cada vez maior de conhecimento e crescimento espiritual. Só assim o Reino poderá crescer, e se multiplicar, cumprindo melhor a função do Ide através de soldados mais bem preparados para o século XXI.

Fonte: Mantenedor da Fé.

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