5 de set de 2011

Templos X Igrejas nos lares


Por. Pr. Magdiel G Anselmo
com citações de ”Porque amamos a igreja” de Kevin Deyoung e Ted Kluck (Ed. Mundo Cristão)
publicado originalmente no blog A Verdade Bíblica
Escrevi meses atrás sobre os movimentos de crentes sem igreja depois de pesquisar o assunto e por se tratar de um tema que no dia-a-dia pastoral se tornou algo habitual, pois não é incomum nos depararmos com pessoas que deixaram suas igrejas e que defendem uma revolução na forma e na metodologia usualmente adotada pelas instituições e organizações cristãs (denominadas evangélicas e/ou protestantes), entendendo esses, que quase tudo que fazem ou pensam essas instituições é errado e contraria a essência do ensino das Escrituras sobre a Igreja.
Algumas pessoas me procuraram para afirmar que não eram sem igreja, mas que eramadeptos de uma nova forma de igreja ou de um retorno a forma correta e bíblica de igreja, que seria a igreja no lar. Não conseguiam explicar bem como era isso, pois defendiam que não havia “muita estrutura” ou “organização” e que isso é que lhes agradava. O Espírito Santo é que comanda!, me afirmavam.
Por isso volto a escrever sobre esse tema pontuando dentro dele uma questão que muito me chamou a atenção nos argumentos utilizados pelos então “revolucionários” asseverando estes que a igreja instituição como dois mil anos de história formaram, não é a vontade de Deus para Sua Igreja (Noiva do Cordeiro).
Para tanto atacam muitas vezes com veemência os prédios da igreja. O argumento é expresso de diversas maneiras: “A igreja é formada por pessoas, não por prédios”; “Não podemos ir à igreja, pois somos a igreja”.
A história é mais ou menos assim: No princípio, quando a igreja era pura, as pessoas se encontravam nas casas. Os cristãos só passaram a reunir-se em seus próprios prédios no século IV, sob Constantino, “o pai dos edifícios eclesiásticos”. Daí os cristãos começaram a chamar seus prédios de “igreja”. Mais tarde, passaram a chamar os prédios de “templos”.
Penso que em muitas ocasiões e locais, os cristãos estejam obcecados por construções, desperdiçando muito tempo e dinheiro em instalações demasiadamente grandes. De fato, às vezes achamos que prédios e igreja são a mesma coisa, quando o importante são as pessoas. O prédio não é um lugar sagrado, pelo menos não no mesmo sentido em que o templo era sagrado. Não creio que o chão dentro da igreja é mais santo do que fora. Portanto, concordo que muitas vezes existe um exagero e até mesmo certa espiritualidade equivocada com relação aos prédios ou templos da igreja em nossos dias.
Entretanto, existe também um exagero na argumentação dos sem igreja com relação ao mesmo tema.
Por que digo isso?
Para começar, é destacado exageradamente que os primeiros cristãos se reuniam em casas.
Ora, eles não se reuniam em casas ou lares para num esforço dar início à primeira religião não religiosa do mundo. Estudiosos do cristianismo primitivo comentam que “a prática de reunir-se em residências particulares foi provavelmente um expediente usado pelos judeus em muitos lugares, assim como para os cristãos paulinos, a julgar pelas ruínas de sinagogas em Dura Europos, Stohi, Delos e outros lugares, que eram adaptações de habitações particulares”.
E mais, os cristãos se reuniram em casas por trezentos anos porque sua fé era ilegal. Não havia outro lugar onde pudessem se encontrar, razão pela qual os prédios começaram a surgir depois de Constantino ter descriminalizado o Cristianismo. Não há mandamento para que os cristãos se reúnam em pequenos grupos em lares e nenhuma razão para pensar que tenham feito isso por algum outro motivo que não a necessidade e a conveniência.
Também vale ressaltar que uma casa romana, especialmente com pátio, poderia ser bem espaçosa, permitindo que quase cem pessoas se reunissem ali. Portanto, a “igreja no lar” não necessariamente significava um pequeno grupo de estudo bíblico. Em alguns casos, essas reuniões tinham mais pessoas que muitas igrejas espalhadas pelo nosso país.
Além disso, os primeiros cristãos não se reuniam exclusivamente em lares.
Vemos em Atos que eles também se encontravam no Pórtico de Salomão (At. 5:12), ainda iam as sinagogas (Atos 3:1) e ocasionalmente alugavam locais para palestras, como na Escola de Tirano (Atos 19:9). Provas arqueológicas também demonstram que eles às vezes se encontravam em cavernas.
Além disso, escavações descobriram uma casa de meados do século III (antes de Constantino!) que foi amplamente reformada, incluindo um salão de reuniões aumentado, para tornar-se um prédio “inteiramente dedicado a funções religiosas”, após o que “toda atividade doméstica cessou”. Será que isso tem alguma semelhança com as igrejas atuais? Claro que tem.
Por cima de tudo isso, temos Tiago 2:2, onde se lê: “Se, portanto, entrar na vossa sinagoga algum homem…” O termo original pode ser traduzido como “reunião” (NVI) ou “ajuntamento” (RC), mas também pode referir-se a uma sinagoga real. Considerando que Tiago escreveu a judeus (1:1) e que “sinagoga” era o termo comum usado para construções religiosas entre os judeus, é possível que Tiago 2:2 faça referência a cristãos judeus primitivos que se reunissem em seus antigos edifícios religiosos.
Resumindo:
Essa conversa toda sobre prédios da igreja é muito barulho por nada. Mesmo os “sem igreja” precisam reunir-se em algum lugar. Ainda que não possuam prédios, presumivelmente a sua reunião de adoração não ocorre num lugar aleatório, secreto e mutável (a não ser que estejam enfrentando perseguição como os primeiros cristãos). A verdade é que possuem um local para tal.
O fato (mesmo que não se agradem de ler isso) é que existe algum lugar no qual sua igreja se reúne.
É certo que, a rigor, podem querer pensar nesse local mais como uma casa de reunião (como os puritanos) que como uma igreja. Mas, se chamarem o prédio de “igreja”, creio que Deus vai entender.
E, no caso de pensarem, sem nenhuma superstição: “Posso adorar a Deus em todo o lugar onde estiver, mas este é o único lugar onde o adoro com o Corpo de Cristo, onde recebo as ministrações (sacramentos ou ordenanças, como quiser) e celebro a ressurreição, o dia do Senhor e, portanto devemos separá-lo de algum modo”, isso também não será um impulso ruim.
Além do mais, muitos prédios eclesiásticos são usados praticamente todas as noites da semana. É certo que um prédio custa dinheiro e exige esforço para ser mantido, mas estudos bíblicos, classes de discipulado, almoços festivos, encontros de casais, eventos esportivos, classes de idiomas, EBD e centenas de outras coisas acontecem naquele prédio o tempo todo exatamente porque isso não funcionaria na casa de alguma pessoa.
Por fim, não critico quem adora a Deus em sua casa ou em outra, ou em um trem ou praça, nas ruas ou em qualquer outro local. É uma forma, mas não é a forma. Grupos pequenos são úteis e fazem parte da vida da igreja. São complementares as duas formas, seja em lares, seja no templo, seja em grupos pequenos, seja de forma congregacional. Não são excludentes.
Mas, critico sim essa história de retorno ao que era correto e bíblico. Não creio que Deus abandonou a igreja nesse dois mil anos e permitiu que ela se desviasse da Sua vontade. Penso que Deus é que direcionou a Sua Igreja (e aqui me refiro “as igrejas” pois elas formam a Igreja) a prosseguir e o Espírito Santo a conduziu até hoje. Ela não é perfeita (não me refiro a seitas, mas igrejas) e não será antes da glorificação, mas “até aqui nos ajudou o Senhor”.
Há algumas revoluções que precisamos realizar, mas não nessa questão.
Por isso, não me preocupo com a igreja. Ela sobreviverá a mais essa onda. Os seus cultos, sermões, liturgia, forma institucional e organizacional sobreviverá e prosseguirá. Me preocupo com os que saem da igreja. Como estarão daqui a cinco ou dez anos? Será que ainda estarão defendendo essa tal revolução? Me preocupo como estarão seus corações distantes da família e como estarão suas feridas?
Quero fazer uma observação antes de encerrar:
Alguns escritores, principalmente norte-americanos (e está na moda escrever sobre os defeitos da igreja) são adeptos do slogan: “aquele que adora debaixo de um campanário não condene o que adora debaixo de uma chaminé”. Em nosso contexto seria algo do tipo: “aquele que adora em bancos de templos não condene o que adora em seu sofá da sala”. Isso é uma verdade, mas também deveria ser verdadeiro “que aquele que adora no sofá da sala de estar não condene quem adora em bancos, juntamente com púlpitos, vitrais e salão social”.

Fonte:Mantenedor da Fé

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