28 de nov de 2011

A “Bíblia” da música gospel é diferente?


Por Pr. Sylvio Macri
Publicado originalmente em Prazer da Palavra
A propósito das reflexões que se fazem neste mês de novembro a respeito da música e da adoração, achei oportuno compartilhar com os leitores algo que vem me incomodando bastante. Nas igrejas onde tenho ido (não na minha, felizmente), ouço cantar certas coisas que é duro de engolir. Trata-se versões muito particulares de episódios bíblicos, popularizadas em cânticos ditos “gospel”, que violentam o texto bíblico.
Um colega e amigo falou-me da música “Cinco pães e dois peixinhos”e comentou que uma parte da letra especula sobre o texto bíblico correspondente, imaginando detalhes que não estão lá. Busquei a letra no Google e o que encontrei foi pior ainda, pois existe na mesma a insinuação de que seu autor conhece uma versão do texto que nós não conhecemos (parece que Deus só a revelou a ele). Diz o autor: “Nem sempre se sabe detalhes de um milagre, mas eu vou contar a história…”. E aí passa a fantasiar uma cena em que o menino diz à mãe que o Mestre o está chamando para ajudá-lo a alimentar uma multidão, e por isso ele preparou os cinco pães e os dois peixinhos.
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Os registros dessa passagem nos evangelhos sinóticos (Mateus, Marcos e Lucas) dizem que foram os discípulos que informaram a Jesus sobre os cinco pães e dois peixinhos. O evangelho de João detalha um pouco mais, e diz que foi André quem mencionou o menino que os tinha. Não há nenhuma evidência no texto de que o menino tivesse ido ao local deliberadamente para oferecer sua merenda a Jesus, ao contrário, o que se percebe é que a iniciativa de falar a Jesus sobre os alimentos foi de André, e não dele. Por outro lado, na cultura da época naquela região, uma criança muito provavelmente não teria acesso fácil a esse tipo de alimentação, principalmente numa família pobre. Por isso, é mais fácil concluir que teria sido a mãe que preparara a merenda, não fazendo sentido, assim, o diálogo entre mãe e filho.
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Essa é uma tendência generalizada entre o pessoal da chamada música “gospel”: a falta de escrúpulos no uso da Palavra de Deus para atingir seus fins, o que, por sinal, se vê também nos pregadores neo-pentecostais (ou “neo” qualquer coisa), auto-portadores de “uma nova revelação”. A música “Entra na minha casa” já havia invertido o registro bíblico, por afirmar que foi Zaqueu quem pediu a Jesus para entrar em sua casa. Agora mais recentemente a música “Ressuscita-me”, usando a passagem da ressurreição de Lázaro, pede que Jesus remova a pedra da vida do autor. Ora, a passagem diz claramente que Jesus ordenou a alguns dos presentes que removessem a pedra da entrada da sepultura, mas ele mesmo não tirou pedra nenhuma.
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Mas, o que me causa horror nessa música, como também nas outras duas mencionadas acima, é o seu viés humanista, seu antropocentrismo, a violenta distorção do texto para dar-lhe uma roupagem de literatura barata de auto-ajuda. Note-se a coincidência de expressões como “faz um milagre em mim”, “preciso de um milagre”, “grande foi o meu milagre”, “mexe com a minhaestrutura”, “ressuscita os meus sonhos”, etc. (Quem está copiando quem?).
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As expressões chaves dessas passagens – solenemente ignoradas pelos autores das músicas – dizem que Jesus é o “pão da vida”, é “aquele que veio buscar e salvar o que se havia perdido”, é a “ressurreição e a vida”, o que implica em que o pão foi partido por nós na cruz, que o perdido só é salvo através da cruz, que a ressurreição e a vida do homem somente vêm pela morte e ressurreição de Jesus, e que tudo isto é apropriado somente por meio de arrependimento e fé, com base na graça soberana de Deus. Confrontada com o Pão da Vida, a multidão abandonou Jesus, pois preferia “o pão que perece”. Confrontado com Jesus, Zaqueu confessou seus pecados, arrependeu-se e foi perdoado. Ressuscitado por Jesus, Lázaro tornou-se um incômodo para os líderes judeus, que decidiram matá-lo também. Sua história não é uma “história de sucesso”; aliás, nem se ouve mais falar dele.
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Mas isso não  importa, ou não vem ao caso, porque precisamente o caso é produzir música que “venda”. E para vender não pode dizer que o consumidor é um pecador, um miserável espiritual, que precisa ter a sua vida radicalmente transformada e obedecer a Deus de um modo irrestrito. São questões muito “pesadas”, exigem um envolvimento muito sério com Deus; então, deixemos isso de lado. Vende mais se retratarmos Deus como uma espécie de “garçom”, pronto a servir as bênçãos mais deliciosas, sem pagarmos nada; é só pedir. Ou melhor, é só comprar o disco.
Arreda, Satanás!

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