21 de nov de 2011

Homens imitadores de Cristo



Homens imitadores de Cristo
Referência: Filipenses 2.17-30
INTRODUÇÃO
1. Jesus Cristo deve ter a supremacia em nossa vida (Fp 1.21)
A grande ênfase do primeiro capítulo de Filipenses é mostrar que Cristo ocupa o lugar mais alto da nossa vida. Ele tem a supremacia. Para mim o viver é Cristo, diz o apóstolo Paulo (Fp 1.21). O capítulo dois de Filipenses nos revela que o próprio Pai exaltou a Cristo sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome (Fp 2.9-11).
2. O outro deve ter a primazia em nossos relacionamentos (Fp 2.4,5,17,20,30)
Se a ênfase do capítulo primeiro de Filipenses é Cristo primeiro; a ênfase do capítulo segundo é o outro na frente do eu. Neste capítulo dois Paulo dá quatro exemplos de abnegação e auto-sacrifício. Ele menciona o exemplo de Cristo (Fp 2.5-11), o seu próprio (Fp 2.17,18), o de Timóteo (Fp 2.19-24) e o de Epafrodito (Fp 2.25-30).
Já examinamos o exemplo de Cristo; agora, veremos os outros três exemplos.
I. PAULO, O PRISIONEIRO DE CRISTO (2.17,18)
O apóstolo Paulo vai usar três exemplos de altruísmo. Ele começa consigo. Quando vai tratar de si mesmo, usa apenas um verso (Fp 2.17), mas quando vai falar de Timóteo e Epafrodito usava seis versos para cada um.
1. Um homem pronto a morrer pela causa do evangelho (Fp 2.17)
O apóstolo Paulo estava preso em Roma, sob algemas, com esperança de ser absolvido em seu julgamento por meio das orações da igreja (Fp 1.19; Fm 22). Paulo era um homem que nutria a sua alma de esperança (Fp 2.24). Ele se considerava prisioneiro de Cristo e não de César. Não eram os homens maus que estavam no controle da sua vida, mas a providência divina. Ele não estava travando uma luta pessoal, mas estava pronto a morrer pelo evangelho.
2. Um homem pronto a dar sua vida como libação em favor de outros (Fp 2.17)
O apóstolo Paulo usa a figura da libação, um rito comum tanto no paganismo como na religião judaica (Nm 15.1-10) para expressar sua disposição da dar sua vida pelo evangelho e pela igreja (2Tm 4.6).
William Barclay diz que uma libação no paganismo consistia em derramar um cálice de vinho como oferenda aos deuses. Cada comida pagã começava e terminava com dita libação como uma espécie de ação de graças. No judaísmo a libação era o derramamento de vinho ou azeite sobre a oferta do holocausto (Nm 15.5,7,10). A vida e o trabalho dos cristãos poderiam ser descritos como um sacrifício (Rm 12.1). A oferta dos filipenses a Paulo foi comparada como oferta agradável a Deus (Fp 4.18).
Paulo olhava para a vida numa perspectiva espiritual. Ele não está pensando numa libação dos cultos pagãos, mas na entrega fervorosa de usa vida a Deus. Ele via a prática cristã dos crentes de Filipos como um sacrifício para Deus e via sua morte em favor do evangelho como uma oferta de libação sobre o sacrifício daqueles irmãos.
Nessa mesma trilha de pensamento H. C. G. Moule diz que Paulo via os crentes de Filipos como um altar de sacrifício, onde a vida e o serviço deles eram como uma oferta a Deus; e sobre esse altar de sacrifício, ele via o seu sangue que seria em breve derramado como uma oferta de libação.
Ralph Martin diz que “sacrifício” e “serviço” é combinação de duas palavras, uma das quais é leitougia. Os dois termos formam uma única idéia. Leitourgia é uma palavra de culto, associada a thysia (sacrifício), e juntas referem-se a um culto sacrificial, realizado pela fé dos filipenses, ao sustentar ativamente o apóstolo, mesmo sendo pobres (2Co 8.2). As dádivas deles eram como oferta fragrante a Deus (Fp 4.18).
3. Um homem pronto a dar sua vida por outros não por constrangimento, mas com grande alegria (Fp 2.17,18)
O apóstolo Paulo demonstra uma alegria imensa mesmo estando na ante-sala da morte e no corredor do martírio. Suas palavras não são de revolta nem de lamento. Ele foi perseguido, apedrejado, preso, e açoitado com varas. Ele enfrentou frio, fome e passou privações. Ele enfrentou inimigos de fora e perseguidores de dentro. Ele, agora, está em Roma, sendo acusado pelos judeus diante de César, aguardando uma sentença que pode levá-lo à morte; mas a despeito dessa situação sua alma está em festa e seu coração está exultando de alegria.
Paulo está usando a figura da libação para mostrar que a morte dele completaria o sacrifício dos filipenses. O martírio coroaria sua vida e seu apostolado. Porém, Paulo deseja que esse sacrifício seja colocado como crédito aos filipenses e não a seu próprio. Sendo assim, não haveria motivo para lágrimas.
Essa perspectiva levou Paulo a dizer: “… alegro-me e, com todos vós, me congratulo. Assim, vós também, pela mesma razão, alegrai-vos e congratulai-vos comigo” (Fp 2.17,18). Nessa mesma linha de pensamento William Hendriksen escreve: “O derramamento do sangue de Paulo é motivo de alegria para ele, sempre que seja considerado como uma libação que coroará a oferenda sacrificial apresentada pelos filipenses”.
Paulo está dizendo para a igreja que sendo ele absolvido (Fp 1.25) ou morrendo (Fp 2.17), ela deveria alegrar-se. Plutarco usa essa mesma expressão usada por Paulo para falar do mensageiro da batalha de Maratona que depois de uma longa corrida chegou a Atenas, e deu a notícia da vitória do seu povo na batalha: “Alegrai-vos e congratulai-vos comigo”. E caiu morto.
II. TIMÓTEO, O FILHO FIEL (Fp 2.19-24)
1. Timóteo, o enviado de Paulo (Fp 2.19,23)
Quem era esse mensageiro de Paulo chamado Timóteo? Sua mãe e sua avó eram crentes (2Tm 1.5) e seu pai grego (At 16.1). Ele conhecia a Palavra de Deus desde a infância (2Tm 3.15). Foi convertido na primeira viagem missionária de Paulo e cresceu espiritualmente, pois, passou a ter bom testemunho em sua cidade antes de unir-se ao apóstolo em sua segunda viagem missionária (At 16.1,2). Timóteo era filho na fé de Paulo (1Tm 1.2), cooperador de Paulo (Rm 16.21), e mensageiro de Paulo às igrejas (1Ts 3.6; 1Co 4.17; 16.10,11; Fp 2.19). Ele esteve preso com Paulo em Roma (Fp 1.1; Hb 13.23). Ele era jovem (1Tm 4.12), tímido (2Tm 1.7,8) e doente (1Tm 5.23). Ele tinha um caráter provado (Fp 2.22) e cuidava dos interesses de Cristo (Fp 2.21) e dos interesses da igreja de Cristo (Fp 2.20).
É ainda digno de nota que Timóteo esteve presente quando a igreja de Filipos foi estabelecida (At 16.11-40; 1Ts 2.2), e, ainda, subseqüentemente também os visitou, mais de uma vez (At 19.21,22; 20.3-6; 1Co 1.1). Portanto, ele era a pessoa indicada para ser enviado novamente à igreja de Filipos.
Longe de proceder de forma egoística, procurando manter perto de si o maior contingente possível de amigos, Paulo enviou Tíquico a Éfeso, Crescente à Galácia e Tito à Dalmácia (2Tm 4.10-12). Werner de Boor diz que é maravilhoso saber que Paulo pretende, agora, enviar a Filipos Timóteo, o melhor colaborar de que dispõe.
2. Timóteo, um homem singular (Fp 2.20a)
Havia muitos cooperadores de Paulo, mas Timóteo ocupava um lugar especial no coração do velho apóstolo. Ele era um homem singular pela sua obediência e submissão a Cristo e ao apóstolo como um filho a um pai. A palavra grega que Paulo usa para “igual sentimento” só aparece aqui em todo o Novo Testamento. É a palavra isopsychos, que significa “da mesma alma”. Esse termo foi usado no Antigo Testamento como “meu igual” e “meu íntimo amigo”(LXX Sl 55.13). F. F. Bruce citando Erasmo diz que ele parafraseia esta passagem assim: “Eu o enviarei como o meu alter ego”.
3. Timóteo, um homem que cuida dos interesses dos outros (Fp 2.20b)
Timóteo aprendeu o princípio ensinado por Paulo de buscar os interesses dos outros (Fp 2.4), princípio esse, exemplificado por Cristo (Fp 2.5) e pelo próprio apóstolo (Fp 2.17).
Timóteo de igual modo vive de forma altruísta, pois o centro da sua atenção não está em si mesmo, mas na igreja de Deus. Ele não busca riqueza, nem promoção pessoal. Ele não está no ministério em busca de vantagens; ele tem um alvo: cuidar dos interesses da igreja.
É uma pena que os cristãos de Roma estivessem tão envolvidos com os próprios problemas e desavenças (Fp 1.15,16) a ponto de não ter tempo para a obra importante do Senhor. Warren Wiersbe diz que essa é uma das grandes tragédias causadas pelos problemas internos das igrejas; eles consomem tempo, energia e preocupação que deveriam estar sendo dedicados a coisas mais essenciais.
Jacó, depois de convertido, passou a ter uma grande sensibilidade para lidar com os outros (Gn 33.13,14). Timóteo era assim também. Você se preocupa com o povo de Deus? Você trata as pessoas de forma gentil? Você conduz sua família, seus filhos, sua classe de Escola Dominical, seus irmãos em Cristo de forma gentil? Concordo com Robertson, quando afirma: “O melhor caminho para ser feliz é fazer os outros felizes”.

4. Timóteo, um homem que cuida dos interesses de Cristo (Fp 2.21)
Só existem dois estilos de vida: aqueles que vivem para si mesmos (Fp 2.21) e aqueles que vivem para Cristo (Fp 1.21). Estamos em Filipenses 1.21 ou, então, estaremos em Filipenses 2.21. Timóteo queria cuidar dos interesses de Cristo e não dos seus próprios. Sua vida estava centrada em Cristo (Fp 2.21) e nos irmãos (Fp 2.20b) e não no seu próprio eu (Fp 2.21).
Corretamente Werner de Boor afirma: “Quem busca o que é seu, sua própria fama, seu próprio conforto, esquiva-se do esforço e da dor de ir a fundo nas questões em uma igreja e solucionar as mazelas com mão paciente, afetuosa, e por isso também firme”.
James Montgomery Boyce diz que é fácil colocarmos outras coisas primeiro em nossa vida. Você pode colocar sua própria reputação primeiro. Pode colocar seus prazeres em primeiro lugar. Pode colocar em primeiro lugar seus planos, sua família, seu sucesso ou qualquer outra coisa. Mas, se você fizer isso, todas essas coisas ficarão distorcidas e você perderá a maior de todas as bênçãos da sua vida. Porque Timóteo colocou Cristo em primeiro lugar, as outras coisas se estabeleceram naturalmente.
Havia muitos que colocavam seus interesses acima e antes dos interesses alheios, ou estavam muito preocupados, buscando mais “o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus”. Embora, alguns em Roma estavam pregando o evangelho “por amor” (Fp 1.16), de todos quantos estavam disponíveis perante Paulo, nenhum era tão destituído de egoísmo como Timóteo. Para Timóteo, como para Paulo, a causa de Cristo Jesus envolvia o bem-estar de seu povo.
5. Timóteo, um homem de caráter provado (Fp 2.22)
Timóteo tinha bom testemunho antes de ser missionário (At 16.1,2) e agora, quando Paulo está para lhe passar o bastão, como continuador da sua obra, dá testemunho de que ele continua tendo um caráter provado (Fp 2.22). É lamentável que muitos líderes religiosos que são grandes em fama e riqueza sejam anões em caráter. Vivemos uma crise avassaladora de integridade no meio evangélico brasileiro. Precisamos urgentemente de homens íntegros, provados, que sejam modelo do rebanho.
6. Timóteo, um homem disposto a servir (Fp 2.22b)
É digno de nota que Timóteo serviu ao evangelho. Ele serviu com Paulo e não a Paulo. Embora, a relação entre Paulo e Timóteo fosse de pai e filho, ambos estavam engajados no mesmo projeto. Hoje, muitos líderes se colocam acima de seus colaboradores. A relação não de é de parceria no trabalho, mas de subserviência pessoal.
III. EPAFRODITO, O COMPANHEIRO DE MILÍCIA (Fp 2.25-30)
Paulo, o administrador solícito da obra missionária, agora se volta de Timóteo para Epafrodito. Este valoroso obreiro só é citado nesta carta aos Filipenses neste parágrafo e em Filipenses 4.18, porém, é o suficiente para compreendermos seu profundo amor por Jesus e pela igreja.
Paulo era um “hebreu de hebreus”, Timóteo era em parte judeu e em parte gentio (At 16.1). E, tanto quanto sabemos, Epafrodito era inteiramente gentio. Mas, todos eles tinham a mesma característica: estavam dispostos a viver para Cristo e dar sua vida pelos irmãos. O nome Epafrodito significa “encantador”, “amável”. Sua vida refletia o seu nome.
1. Um homem pronto a servir o apóstolo Paulo mesmo correndo grandes riscos (Fp 2.25a,30)
Epafrodito foi o portador da oferta da igreja de Filipos a Paulo e o portador da carta de Paulo à igreja de Filipos. Ele viajou de Filipos a Roma para levar uma oferta da igreja ao apóstolo (Fp 2.30; 4.18) e também para assistir ao apóstolo na prisão (Fp 2.25). Paulo o chama de irmão, cooperador e companheiro de lutas. Como diz Lightfoot, Epafrodito era um com Paulo em afeto, em atividade e em perigo. Isso mostra que Epafrodito era um homem equilibrado. Warren Wiersbe corretamente comenta:
O equilíbrio é importante para a vida cristã. Alguns enfatizam tanto a “comunhão” que se esquecem do progresso do evangelho. Outros se encontram de tal modo envolvidos com a defesa da “fé evangélica” que não desenvolvem a comunhão com outros cristãos. Epafrodito não caiu nessas armadilhas. Era como Neemias, o homem que reconstruiu os muros de Jerusalém segurando a pá em uma das suas mãos e a espada na outra (Ne 4.17). Não podemos construir com uma espada nem combater com uma pá! Precisamos desses dois instrumentos para realizar a obra do Senhor.
Vejamos a descrição que Paulo faz de Epafrodito:
Em primeiro lugar, ele era um irmão (Fp 2.25). Se nós estamos em Cristo, há um elo de amor fraternal que nos une uns aos outros. Essa é uma palavra que destaca a relação de família.
Em segundo lugar, ele era um cooperador (Fp 2.25). Epafrodito era um trabalhador na obra de Cristo e um ajudador de Paulo. A palavra grega usada por Paulo é synergos, denotando que Paulo e Epafrodito estão no mesmo serviço do reino de Deus.
Em terceiro lugar, ele era um companheiro de milícia (Fp 2.25). A vida cristã não é um parque de diversões, uma colônia de férias, mas um campo de guerra. Epafrodito estava no meio desse campo de lutas juntamente com o apóstolo Paulo. O pano de fundo é o de uma metáfora geral, em que ambos são “companheiros no conflito”, na guerra contra o mal. Epafrodito é um companheiro de milícia, um companheiro de armas. William Hendriksen diz que um obreiro deve ser também um guerreiro, porque na obra do evangelho terá que combater contra muitos inimigos: mestres judaizantes, gregos e romanos escarnecedores, adoradores do imperador, sensualistas, governadores deste mundo tenebroso, etc.
2. Um homem pronto a servir a igreja de Cristo (Fp 2.25b)
Paulo descreve Epafrodito de duas maneiras em relação ao seu serviço à igreja:
Em primeiro lugar, ele é um mensageiro da igreja (Fp 2.25b). A palavra grega que Paulo usa é apostolos. Aqui a palavra “apóstolo” tem o sentido “daquele que é enviado com um recado”. A missão de Epafrodito não foi apenas a de trazer a Paulo o donativo da igreja filipense, mas também a de servir a Paulo de qualquer forma que fosse requerida. Portanto, Epafrodito fora enviado tanto para levar uma oferta quanto também para ser uma oferta dos filipenses a Paulo.
Em segundo lugar, ele é um auxiliar da igreja para ajudar Paulo (Fp 2.25b). A palavra grega usada por Paulo é leitourgos, de onde vem a nossa palavra “liturgia” que significa serviço ou culto sagrado. Lightfoot diz que essa palavra tem uma vasta história: 1) Era um serviço civil; 2) Depois passou a significar qualquer tipo de função ou ofício; 3) Em seguida recebeu o significado de uma ministração sacerdotal, especialmente entre os judeus; 4) Também significou os serviços eucarísticos; 5) E finalmente, passou a significar as formas da divina adoração. A idéia, portanto, do apóstolo é que o crente é um sacerdote que ministra um culto a Deus enquanto atende às necessidades dos outros. Epafrodito fazia do seu serviço prestado à igreja uma liturgia e um culto para Deus.
William Barclay ainda traz mais luz para o entendimento dessa palavra. No grego secular leitourgia era uma palavra nobre. Nos dias da Grécia antiga, muitos amavam tanto a sua cidade que com seus próprios recursos e às suas próprias expensas se responsabilizam de certos deveres cívicos importantes. Podia tratar-se de bancar os gastos de uma embaixada, ou o custo da representação de um importante drama de algum dos famosos poetas, ou o entretenimento dos atletas que iriam representar a cidade nos jogos ou o equipamento de um barco de guerra e os gastos de uma tripulação a serviço do Estado. Eram sempre dons generosos para o Estado. Tais homens eram conhecidos como leitourgoi. Esta é a palavra que Paulo adota e aplica a Epafrodito.
Bruce Barton afirma que Epafrodito tinha vindo a Roma não apenas para trazer dinheiro para Paulo, mas também para ministrar às necessidades espirituais de Paulo sem prazo determinado para voltar. Como Timóteo esse homem colocou as necessidades dos outros acima de suas próprias (Fp 2.4; 2.20).
3. Um homem sem imunidades especiais (Fp 2.26,27)
Destacamos aqui três coisas:
Em primeiro lugar, Epafrodito mesmo fazendo a obra de Deus ficou doente (Fp 2.26). Paulo Lockmann diz que aqui é introduzido um tema que em geral é muito mal trabalhado na igreja, que é a enfermidade. Uns dizem que crente não fica doente, outros dizem que não existem mais curas vindas de Deus milagrosamente, e outros afirmam que toda doença é do diabo. Todas essas posições são biblicamente erradas.
Em Roma, Epafrodito caiu enfermo, possivelmente vítima da conhecida febre romana que às vezes varria a cidade como uma epidemia e um açoite. A enfermidade o havia levado às portas da morte. Não estamos livres como cristãos das intempéries naturais da vida. Paulo não disse que ele ficou doente porque isso foi um ataque de Satanás nem que ele ficou doente porque tinha uma fé trôpega nem ainda porque estava em pecado. Aqueles que pregam que um crente não pode ficar doente e que toda doença é obra maligna estão equivocados.
Em segundo lugar, Epafrodito mesmo fazendo a obra de Deus adoeceu mortalmente (Fp 2.27). Ele não apenas adoeceu, mas adoeceu para morrer. Sua enfermidade foi algo grave. Os crentes não são poupados de enfrentar as mesmas dores, as mesmas tristezas e as mesmas enfermidades. Paulo não considera a doença grave de um irmão como uma falha na vida de fé, diz Werner de Boor. Nessa mesma linha de pensamento James Montgomery Boyce diz:
Algumas pessoas têm ensinado que a saúde é um direito inalienável do cristão e que a doença é resultado do pecado ou da falta de uma fé robusta. Outros, como os falsos consoladores de Jó têm dito que a doença é sempre um sinal do castigo e da disciplina de Deus. Esses pensamentos não são verdadeiros e o caso de Epafrodito os refuta. Epafrodito era um homem que devia receber as maiores honras na igreja (Fp 2.29). No entanto, ele caiu enfermo no meio do trabalho abnegado do serviço cristão. Ainda mais, ele ficou doente por um longo período. Filipos ficava há 1.080 quilômetros de Roma. Naquele tempo gastava-se pelo menos seis semanas para se viajar de Roma a Filipos. Ele ficou doente o tempo suficiente para que os crentes de Filipos soubessem disso e a notícia de volta acerca de tristeza da igreja chegasse a ele em Roma. Assim, ele esteve doente pelo menos por uns três meses. E mais, ele estava na companhia de Paulo, porém, o apóstolo não tinha indicações do Senhor para curá-lo.
Em terceiro lugar, Epafrodito mesmo sendo um servo de Deus sofreu profunda angústia (Fp 2.26). Paulo descreve a angústia de Epafrodito usando a mesma palavra que os evangelistas usaram para a angústia de Cristo no Getsêmani (Mt 26.37). Essa palavra no grego ademonein denota uma grande angústia mental e espiritual (Mc 14.33), a angústia que se segue a um grande choque. A saudade dos irmãos, a apreensão acerca da sua condição e a impossibilidade de cumprir plenamente o seu trabalho em relação ao apóstolo Paulo afligiu-lhe a alma sobremaneira.
4. Um homem curado pela intervenção de Deus (Fp 2.27)
A cura de Epafrodito foi um ato da misericórdia de Deus. Não há aqui qualquer palavra de Paulo acerca da cura pela fé. Simplesmente o apóstolo afirma que Deus teve misericórdia dele e de Epafrodito. Em última instância, toda cura é divina (Sl 103.3). Deus cura por intermédio dos meios, sem meios e apesar dos meios. Deus curou Epafrodito por amor a ele, a Paulo e à igreja de Filipos (Fp 2.27,28). Deus ainda tem todo o poder de curar. Ele, ainda, tem tirado muitos das portas da morte. Porém, precisamos nos acautelar acerca dos embusteiros que enganam os incautos com falsos milagres e se enriquecem com promessas vazias.
5. Um homem que merece ser honrado pela igreja (Fp 2.29)
Paulo estava preocupado que algumas pessoas pudessem criticar Epafrodito pela sua volta prematura à igreja sem cumprir plenamente seu papel em relação à assistência a Paulo na prisão. O apóstolo, então, com seu senso pastoral, antecipa a situação e ordena à igreja a receber esse valoroso irmão com alegria e com honra.
Não há nada de errado em um servo receber honra. Aliás, esse é um princípio bíblico que precisamos obedecer. Escrevendo aos crentes de Tessalônica Paulo diz: “Agora, vos rogamos, irmãos, que acateis com apreço os que trabalham entre vós e os que vos presidem no Senhor e vos admoestam; e que os tenhais com amor em máxima consideração, por causa do trabalho que realizam. Vivei em paz uns com os outros” (1Ts 5.12,13).
O mundo honra aqueles que são inteligentes, belos, ricos, e poderosos. Que tipo de pessoas a igreja deve honrar? Epafrodito foi chamado de irmão, cooperador, companheiro de lutas, mensageiro e auxiliar. Esses são os emblemas da honra. Paulo nos encoraja a honrar aqueles que arriscam a própria vida por amor de Cristo e o cuidado dos outros, indo onde não podemos ir por nós mesmos.
6. Um homem que se dispôs a dar sua vida pela obra de Cristo (Fp 2.30)
A viagem de Filipos para Roma era uma longa e árdua jornada com mais de mil quilômetros. Associar-se com um homem acusado, preso e na iminência de ser condenado também constituía um risco sério. Porém, Epafrodito se dispôs a enfrentar todas essas dificuldades pela obra de Cristo em favor da assistência material e espiritual a Paulo na prisão.
A palavra grega que Paulo usa neste verso 30 para: “… dispôs-se a dar a própria vida…” é paraboleuesthai. Essa palavra se aplica ao jogador que aposta tudo em uma jogada de dados. William Barclay diz que o que Paulo está dizendo é que Epafrodito jogou sua própria vida pela causa de Jesus Cristo arriscando-a temerariamente.
O mesmo escritor ainda ilustra:
Nos dias da Igreja Primitiva existia uma associação de homens e mulheres chamados parabolani: os jogadores. Tinham como propósito e objetivo visitar aos prisioneiros e enfermos, particularmente aos que estavam prostrados por uma enfermidade perigosa e infecciosa. Em 252 d. C., explodiu uma peste em Cartago; os pagãos lançavam os corpos de seus mortos nas ruas e fugiam aterrorizados. O bispo cristão Cipriano reuniu a seus fiéis em uma assembléia e lhes encorajou a enterrar aos mortos e cuidar dos enfermos na cidade açoitada pela praga. Agindo dessa maneira, arriscando a própria vida, eles salvaram a cidade da destruição e da desolação. A igreja sempre necessita dos parabolani: os que entregam sua vida para o serviço de Cristo e dos outros.
CONCLUSÃO
Paulo, assim, apresentou três exemplos da mesma atitude de auto-renúncia, “o mesmo sentimento que houve em Cristo Jesus” (Fp 2.5). Ele escreveu sobre sua própria prontidão para sofrer o martírio (Fp 2.17). Ele menciona o trabalho altruísta de Timóteo em favor de Cristo e da igreja (Fp 2.18-23) e finalmente, ele fala sobre a devoção de Epafrodito à missão que lhe fora confiada de ir a Roma para levar-lhe uma oferta da igreja e assisti-lo em sua prisão (Fp 2.30).
O julgamento de Paulo estava se aproximando. Alguns já o haviam abandonado. Estavam ainda com ele Timóteo e Epafrodito. O que ele está pensando em fazer? O que Paulo está pensando acerca dos dias sombrios que precederão a sua execução? Sobre si mesmo? Sobre seu futuro? Não! Ele está pensando nas necessidades de seus irmãos e está pronto a sacrificar seus próprios interesses para enviar a eles seus dois grandes colaboradores. Paulo era um imitador de Cristo. E Cristo deixou a glória para vir ao mundo morrer em nosso lugar. Cristo viveu para os outros, deu sua vida pelos outros (Jo 3.16) e ele nos ensinou a fazer o mesmo (1Jo 3.16), como o fizeram Paulo, Timóteo e Epafrodito.
Fonte: Rev. Hernandes Dias Lopes

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