28 de nov de 2011

A última cartada do Diabo




Por Hermes C. Fernandes


Pode-se falar tudo de mal acerca do Diabo, o arqui-inimigo do povo de Deus. Que ele é astuto, mentiroso, sagaz, perverso, todos já sabemos. Mas há nele uma virtude inegável, e que, por incrível que pareça falta em muitos cristãos. Antes que alguém se escandalize, achando que estou fazendo o papel de advogado do diabo, ou mesmo desista de ler o resto do texto, deixe-me revelar que virtude seria esta. Trata-se da persistência. O inimigo de nossas almas não desiste fácil. E quando ele não obtém êxito com suas ameaças e tentações, ele parte para sua última cartada, a negociação. Já que o prejuízo é inevitável, o diabo busca uma maneira de atenuá-lo ao máximo.  Para tal, ele é capaz de recorrer à via da diplomacia.

Foi esta a estratégia usada por Faraó ao convidar Moisés para o diálogo. O Egito já havia sido alvo de várias pragas enviadas por Deus. Moisés parecia irredutível em sua decisão em tirar seu povo da escravidão. Chegara, portanto, a hora do monarca egípcio usar de toda a sua sagacidade para reduzir as perdas.

Ao todo, foram quatro propostas feitas por Faraó a Moisés, e que coincidem com as propostas que o mundo nos faz. Quando digo “mundo”, refiro-me ao sistema edificado sobre a injustiça, a corrupção e a cobiça, que tem no diabo o seu arquiteto.

Na primeira proposta, Faraó diz ao Moisés: “Ide e oferecei sacrifícios ao vosso Deus nesta terra” (Êx.8:25). Parafraseando-o: Por que deixar o Egito para adorar ao seu Deus? Vocês têm permissão de fazê-lo aqui mesmo.

Poderia parecer benevolência de Faraó, porém, por trás desta proposta havia o receio de que aquele povo, ao deixar o perímetro egípcio, jamais retornasse. Se isso ocorresse, aquela sociedade entraria em colapso, pois dependia da mão de obra escrava. 

De maneira semelhante, o mundo tenta convencer-nos de que podemos servir a Deus sem romper com seus valores, mesmo que sejam antagônicos aos valores do Reino de Deus. Esta proposta se esbarra na advertência feita pelo Espírito Santo:

“Não ameis o mundo nem o que há no mundo. Se alguém ama o mundo, o amor do Pai não está nele. Pois tudo o que há no mundo, a cobiça da carne, a cobiça dos olhos e a soberba da vida, não é do Pai, mas do mundo. Ora, o mundo e a sua cobiça passam, mas aquele que faz a vontade de Deus permanece para sempre” (1 João 2:15-17).

E mais:

“Não sabeis que a amizade do mundo é inimizade com Deus? Portanto qualquer que quiser ser amigo do mundo constitui-se inimigo de Deus” (Tiago 4:4b).

Diante disso, não há margem que nos permita aceitar tal proposta do inimigo. Se quisermos agradar a Deus, temos que romper com o sistema, negando-nos a ser mais uma de suas engrenagens. 

Ao sermos convertidos, somos transportados do império das trevas para o Reino de Cristo (Cl.1:13). Embora ainda vivamos no mundo, já não somos reféns do sistema. Deixamos a condição de escravos do império das trevas, para tornarmo-nos filhos e cidadãos do Reino de Deus.

Dada a recusa imediata de Moisés à primeira proposta, Faraó apresentou-lhe a segunda:

"Eu vos deixarei ir, para que ofereçais sacrifícios ao Senhor, o vosso Deus, no deserto, apenas se, saindo, não fordes muito longe. Agora orai por mim" (Êx.8:28).

Já que vocês insistem em deixar o Egito, vamos combinar o seguinte: podem ir, mas não vão longe. Seria hoje, o equivalente a dizer: Querem congregar numa igreja? Fiquem a vontade! Mas cuidado pra que vocês não fiquem fanáticos. Vão, mas não tão fundo. Envolvam-se com as coisas do Reino, mas não se comprometam. 

Fica óbvio que a preocupação de Faraó era mantê-los ao alcance de sua vista. Esta tem sido uma constante preocupação do inimigo. Ele tenta parecer amistoso, cordial. Chega a pedir que orem por ele. Tudo para conquistar sua confiança, e mantê-los enredados. 

Não podemos cair em sua artimanha! Se é pra deixar o Egito em direção à Terra Prometida, então temos que ir fundo neste propósito. Nada de barganhas com o Diabo! Deus nos chama ao comprometimento com os valores preconizados pelo Evangelho. Envolver-nos na causa do Reino sem nos comprometermos radicalmente com ela é total perda de tempo. 

Deus deseja levar-nos para muito além do alcance da vista do inimigo. Trata-se, portanto, de um caminho sem volta. Satanás terá que aceitar que ficou no prejuízo. Nunca mais vai recuperar seus escravos.

Insatisfeito com a resposta de Moisés, Faraó partiu pra terceira tentativa. Reunido com Moisés e Arão, pergunta-lhes:

"Ide, servi ao Senhor, o vosso Deus. Quem deverá ir?" (Êx.10:8).

Ele queria certificar-se do tamanho do prejuízo que sofreria.

Confira a resposta de Moisés, e a réplica de Faraó:

"Temos de ir com os nossos jovens e com os nossos velhos, com os nossos filhos e com as nossas filhas, com os nossos rebanhos e com o nosso gado, porque temos que celebrar festa ao Senhor. Disse-lhe Faraó: Seja o Senhor convosco, se eu vos deixar ir com as crianças! Vede como tendes más intenções. Não será assim. Agora, ide vós, os homens, e servi ao Sehor, pois isso é o que pedistes. E os expulsaram da presença de Faraó" (Êx.10:9-11).

Até ali, Faraó havia mantido a compostura. Mas agora Moisés fora longe demais. Se as crianças ficassem no Egito, Faraó garantiria a próxima geração de escravos. Caso os pais não retornassem, os filhos os substituiriam imediatamente. O que ele não podia era ficar sem mão-de-obra escrava. 

Muitos cristãos sinceros têm aceito esta proposta do inimigo, pois acham que não devem forçar os filhos a servirem a Deus. Dizem: - Quando eles forem adultos, escolheram por si mesmos. Ora, se os pais têm o sagrado direito de escolher onde os filhos moram, em que escola estudam, o que comem, vestem, e até o time pelo qual torcem, por que não podem influenciar em sua vida espiritual? 

Deveríamos espelhar-nos na postura de Josué, que ao introduzir os hebreus na Terra Prometida, disse-lhes:

"Escolhei hoje a quem sirvais (...) Eu e a minha casa serviremos ao Senhor"(Js.24:15).

A maior herança que os pais deixam para o seus filhos é a sua fé.  

Se Satanás acha que aceitaremos negociar com a alma de nossos filhos, ele está redondamente enganado, e merece uma resposta mal criada à altura de sua petulância. 

Não permitamos que eles sejam educados pela babá eletrônica. Ou que sejam criados na rua. Assumamos a responsabilidade de criá-los debaixo do temor do Senhor, e nos princípios de Sua Palavra. Quando crescerem, nos agradecerão.

Faltava agora a última proposta. Mandando chamar novamente a Moisés, Faraó lhe disse:

"Ide, servi ao Senhor. Somente fiquem os vossos rebanhos e o vosso gado; vão também convosco as vossas crianças" (Êx.10:24).

Já que não dá pra ficar com as famílias (velhos, adultos e crianças), Faraó tenta evitar que eles levem também os seus bens. Quem deixar o Egito? Ok. Estão liberados! Querem ir longe? Vão com Deus! Querem levar a família inteira? Então, sumam da minha frente! Mas não se atrevam a levar seus recursos!

Infelizmente, esta tem sido a proposta mais indecorosa e tentadora que o Diabo tem feito aos cristãos de todas as eras. E não poucos têm cedido a ela. Dizem que comprometem suas almas e famílias com o Reino de Deus, porém, mantém seus recursos distante de qualquer compromisso que não seja com seu próprio bem-estar. Como se fosse possível servir a Deus e ao dinheiro. 

Parece que Martinho Lutero tinha razão ao afirmar que a última parte do indivíduo a ser converter é o bolso. 

Ora, a libertação promovida por Deus ao Seu povo devia abranger todas as áreas. Por isso, lemos que Ele os fez sair do Egito com "prata e ouro", e que entre as suas tribos não houve um só enfermo (Sl.105:37). 

Não adianta dizer que servirmos a Deus, enquanto nossos recursos continuam à mercê do sistema deste mundo. O dinheiro que antes gastávamos com vícios, jogatina, promiscuidade, prazeres, agora deve ser empregado naquilo que enaltece a Deus e beneficia nossos semelhantes. 

A resposta dada por Moisés a esta última proposta de Faraó deve ecoar em nossos lábios:

"Também o nosso gado há de ir conosco; nem uma unha ficará!"(Êx.10:26).

Tudo o que somos, e tudo o que temos, há de servir ao Senhor. Nas palavras do Salmista: "Bendize, ó minh'alma ao Senhor, e tudo o que há em mim, bendiz ao Seu santo nome" (Sl.103:1). E isso inclui, naturalmente, nossos recursos materiais. 

Quando ofertamos, dizimamos e repartimos nosso pão com o nosso próximo, estamos saqueando o Egito, consagrando nossos bens à causa do Reino. Estamos colocando nossos haveres em seu devido lugar. Em vez de servirmos ao dinheiro como um senhor, fazemos dele nosso servo. Assim, ele jamais será instrumento através do qual Faraó nos cativará. 

Se o inimigo é perseverante em seus funestos propósitos, sejamos ainda mais perseverantes que ele no propósito de ser a Deus no lugar onde Ele designou, acompanhado das pessoas que Ele escolheu, e em posse daquilo que Ele nos deu.


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