1 de dez de 2011

E então o púlpito...


Por Rev. Mauro Aiello ►

C. H. Spurgeon, um dos mais consagrados Pastores da história do Cristianismo, e tido como exímio pregador de sua época (Século XIX), afirmou que o púlpito servia bem para ocultar os joelhos trêmulos do pregador.

O Púlpito é aquele móvel utilizado pelo pregador sobre o qual ele apóia a Bíblia e o esboço do sermão que se propõe pregar. Em alguns templos ele é colocado no lado esquerdo e, em outros ele ocupa o lugar central em frente à audiência.

O Púlpito exerce certo fascínio sobre algumas pessoas.

Recordo-me dos meus tempos de criança quando minha tia Duzolina Dalceno Spilla, zeladora da Igreja Evangélica Congregacional do Belém, na Rua Cesário Alvim, me levava, quando ia para fazer a faxina. Em um dado momento eu subia ao Púlpito, abria a enorme Bíblia e começava a “pregar”. Lembro-me também do Púlpito da Igreja Evangélica Congregacional do Parque Cruzeiro do Sul quando era usado pelo competente Pastor Jair Álvares Pintor, ou quando ele trazia pregadores excelentes como John Grant, John Barnet, por exemplo.

Como Pregador do Evangelho já vi Púlpitos de vários modelos e materiais. Quando preguei na Igreja Presbiteriana Central de Itapeva, o Púlpito era um pedaço de um tronco de árvore. Já preguei em Púlpito de acrílico, todo luminoso. Em uma Igreja havia um Púlpito todo de pedra. Há Igrejas em que o Púlpito é quase um lugar intocável. Poucas pessoas podem chegar perto dele. E é bom que saibamos respeitar mesmo esse instrumento, sem exageros, todavia.

Mas, o Púlpito é só um móvel, pura e simplesmente, e tenho a mais absoluta certeza que Pedro, ao proferir os primeiros sermões nas suas experiências em Atos dos Apóstolos, não fez uso deles. O Pregador não precisa do Púlpito para pregar sermões bíblicos. O que o pregador precisa para pregar sermões bíblicos é de Bíblia, uma boa hermenêuticae igualmente uma apreciável homilética associados à uma vida santificada, constituindo-se assim em um canal de bênçãos quando prega.

Devemos entender que a vida do pregador é mais útil do que o móvel que chamamos Púlpito, de tal maneira, que com ou sem ele, o pregador seja o meio pelo qual Deus comunica as verdades bíblicas que irão transformar pessoas.

Púlpito não é trincheira de onde disparamos nossos dardos contra os ouvintes, mas sim lugar para admoestações e exortações que oferecem cura. Há pregadores que fazem do Púlpito um lugar onde a ovelha é flagelada por seus sermões de juízo. Muitos dos que agem assim citam o famoso sermão do Puritano Congregacional Jonathans Edwards—Pecadores nas mãos de um Deus Irado— para justificar a constantes chicotadas como se esse tivesse sido o único Sermão pregado por ele. Mas se formos analisar a vida desse Puritano veremos que não era um chicoteador contumaz, mas um homem que sabia fazer uso da palavra para abençoar seus ouvintes com a Palavra. Esse Sermão citado foi como que uma ilha em meio a um oceano de exortações amorosas e cheias de misericórdia, com certeza.

Há pregadores que usam o púlpito para expor suas considerações pessoais sobre a vida, ou também aqueles que o usam apenas como tribuna de lustro intelectual desfilando seus conhecimentos de teologia totalmente desassociado da tão necessária intimidade com Deus.

O Pregador da Palavra de Deus não pode se esquecer, jamais, que ele prega baseado na Palavra de Deus. Usando as boas ferramentas da hermenêutica, o Pregador Sacro vai às Escrituras e tira delas os ensinamentos que julga serem pertinentes a ele mesmo e às ovelhas colocadas sob seus cuidados. O caminho inverso pode gerar, (e isso tem acontecido ao longo da história do Cristianismo), equívocos, e porque não dizer, até heresias. O pregador não pode nunca se esquecer de que as pessoas podem duvidar de suas palavras, mas com certeza irão pensar mais seriamente nelas quando observarem o sermão sendo vivido por ele.

O Púlpito não é lugar onde o pregador mostra que tem “razão”, mas sim lugar onde o caminho da reconciliação com Deus é apontado por alguém que o tem trilhado. O Púlpito é lugar de compaixão e de misericórdia mesmo quando a palavra for de exortação porque, quem prega deve estar incluído na mensagem. Quando o ancoradouro se torna amargo, o navegante pode querer acomodar-se em outro porto.

O Púlpito não é lugar para recados escondidos em palavras de duplo sentido, ou mesmo um lugar para defesa pessoal de nossa particular cosmovisão.

Não importa de que tipo é o Púlpito, nem onde ele é colocado. Há aqueles que o querem no centro porque entendem que a Palavra de Deus deve estar no centro. Mas essa é uma questão física. A Palavra de Deus deve estar mesmo no centro, mas no centro de nossa atenção, consideração, respeito e coração. De que adianta o púlpito no centro do templo se o sermão pregado não é bíblico? Por outro lado um sermão bíblico não depende do lugar onde o púlpito é colocado.

Para pregarmos o evangelho, doutrinarmos o povo de Deus e alimentá-lo com a Palavra é preciso que sejamos suficientemente humildes para nos lembrarmos que antes de dizermos aos outros sobre o caminho que devem seguir nós já o experimentamos e sabemos onde ele nos leva. Para isso o único instrumento indispensável é a Bíblia, Palavra de Deus, que nos ensina que o caminho da misericórdia é sermos misericordiosos.

Meus joelhos ainda tremem escondidos por detrás do Púlpito, não pelo julgamento que os homens farão de minha Prédica, mas pelo julgamento daquele a quem representamos no momento da profecia e sobre quem fazemos asseverações que demonstram nossa intimidade com Ele. O Púlpito é só um instrumento onde pregamos a Palavra de Deus, a Escritura Sagrada, a Bíblia, por que é ela que nos mostra como devemos viver de tal maneira que Ele tenha prazer em nossa companhia. Se não houver Bíblia de pouco importa a suntuosidade do púlpito, por outro lado se houver Bíblia, sendo pregada com fidelidade, o púlpito é apenas um personagem coadjuvante na pedagogia divina.

Rev. Mauro Aiello para o site da IPB

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.