29 de dez de 2011

O mundo fantasioso dos cristãos conservadores [parte 2]


Homossexualismo é um pecado. Isso é fato! Mas deve ser o único pecado condenado nos outdoor? E  o pecado da avareza?  Condenar um pecado e não oferecer o remédio (Cristo) é pregação do Evangelho ou moralismo vazio?







Mesmo que minha consciência me acuse de ter pecado gravemente contra todos os mandamentos de Deus, e de não ter guardado nenhum deles, e de ser ainda inclinado a todo mal, todavia Deus me dá, sem nenhum mérito meu, por pura graça, a perfeita satisfação, a justiça e a santidade de Cristo. Deus me trata como se eu nunca tivesse cometido pecado algum ou jamais tivesse sido pecador; e, como se pessoalmente eu tivesse cumprido toda a obediência que Cristo cumpriu por mim. Este benefício é meu somente se eu o aceitar por fé, de todo o coração [Catecismo de Heidelberg, em 1563]

OBS: Parte entender o artigo na sua completude, por favor, não deixe de ler a primeira parte deste texto aqui

O moralismo 

O moralismo precisa ser observado com muito cuidado, logo porque a moral é uma necessidade para qualquer um que se julgue cristão. Não existe verdadeiro cristão que seja imoral ou amoral. A moral é necessária e isso é inegável, mas o moralismo é pernicioso quando abraçado como a causa e o caminho da salvação, mesmo que tal decisão seja inconsciente. 

O moralismo não é um simples problema, mas sim um pensamento que pode inviabilizar a própria obra de Cristo. O moralismo leva o homem a acreditar em si mesmo como suficiente para tarefa da auto-salvação. Por mais que queiramos negar, há inúmeros cristãos conservadores apoiados na moral para a própria redenção. O moralismo salvífico é o oposto ao cristianismo protestante, mas ainda assim uma parcela considerável do evangelicalismo popular está presa no mundo falacioso do moralismo vazio. 

O caminho, é claro, não é pregar contra a moral. Nada disso, pois pecado é pecado. O correto é pregar moral como sinal de um cristianismo vivo e já consolidado, mas não como o caminho para a salvação. A salvação é única e exclusivamente pela graça divina. Ninguém pode servir a Deus querendo agradar-lhe como maçãs e presentinhos. Deus não é comprado por ninguém. O moralista salvífico acha que pode comprar Deus porque fez isso e deixou de fazer aquilo. Que terrível engano!

A salvação é a única conquista na vida que não é meritória. Aliás, melhor dizendo: a salvação é sim meritória, mas os méritos são de Cristo. A pregação da graça não é concessão para o pecado, mas sim a lembrança que por mais puro que você seja, ainda assim a sua imundície grita contra a sua salvação. A salvação precisa de uma base. A base da salvação moralista são as suas próprias atitudes. A base da salvação pregada no Evangelho são as atitudes de Cristo!

Quando penso sobre moralismo vazio lembro-me da frase de John Owen, conceituado teólogo puritano do século XVII, que escreveu: “Aquele que troca a soberba pelo mundanismo, a sensualidade pelo farisaísmo, a vaidade pelo desprezo do próximo, não pense que mortificou e abandonou o pecado. Mudou de dono, mas continua escravo” [1]. O moralismo é vizinho do farisaísmo, pois sob o manto da correção afasta muitos corações de Deus.

O teólogo reformado Michael Horton nos alerta sobre o perigo de enfatizar um Jesus altamente moralista, ou seja, um Jesus-exemplo de perfeição e esquecer-se de enfatizar a sua missão exclusiva: A salvação de homens pecadores e a sua missão como vicário, ou seja, nosso substituto! Se alguém abraça Jesus como “exemplo” antes de abraçá-lo como “Salvador” está perdido no moralismo e na auto-salvação. Jesus veio criar um homem melhorado pela penitência moral ou uma nova criatura? Horton escreve: 
Cristo é uma forte de capacitação, mas é amplamente reconhecido entre nós, hoje, como fonte de redenção para o impotente? Ele ajudará o moralmente sensível a se tornar melhor, mas salva o ímpio- incluindo os cristãos? Ele sara as vidas destruídas, mas levanta aqueles que estão “mortos nos vossos delitos e pecados” (Ef. 2.1)? Terá Cristo vindo meramente para melhorar nossa existência em Adão ou para terminá-la, arrebatando-nos para a sua nova criação? Será o cristianismo somente sobre transformações espiritual e moral, ou sobre a morte e a ressurreição- juízo e graça radical? [2]

E Horton completa: “A pregação apropriada da lei vai nos levar ao desespero de nós mesmos, mas apenas para que possamos, finalmente, olhar para fora de nós, para Cristo” [3]. 

O moralismo não é Evangelho. Sim, o Evangelho demanda atitudes morais, mas o moralismo não é o caminho para a salvação. O único caminho é Cristo. Na prática, infelizmente, muitas igrejas conservadoras estão pregando a bondade humana (principalmente a correção da sexualidade) como o substituto de Cristo. É um perigo. A santificação vem depois da salvação e não o contrário. E assim como a salvação, como lembra-nos o Catecismo de Heidelberg na abertura do texto, a santificação também é graça divina. 

Continua... 


Referências Bibliográficas: 

[1] OWEN, John. A Mortificação do Pecado. 1 ed. São Paulo: Editora Vida, 2005. p 73. 

[2] HORTON, Michael. Cristianismo Sem Cristo. 1 ed. São Paulo: Cultura Cristã, 2010. p 20. 

[3] HORTON, Michael. Idem. p 109.


Fonte Teologia Pentecostal

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