16 de jan de 2012

Pequenas Lagoas, Grandes Enganos


Por: Zilton Alencar
publicado originalmente no blog do EsquiZilton
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Na última sexta-feira (13/01) presenciei um diálogo interessante travado entre dois homens, sentados na mesa ao lado da minha em um restaurante de minha cidade. Conversavam sobre música, e em dado momento entraram no assunto da música clássica. Um deles, aparentando maior erudição e com ares de intelectualidade, em dado momento disse que Mozart e Beethoven chegaram a compor juntos, e que inclusive a idéia de Beethoven compor a sua 5ª sinfonia (aquela famosa, do TCHAN TCHAN TCHAN TCHAN!!) foi dada por Mozart. Ri discretamente, pois sabia com absolta certeza que os dois grandes compositores não tinham sido contemporâneos…
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Em casa, com o auxílio da internet, pude comprovar mais detalhes desta desinformação…  Mozart viveu entre 1756 e 1781, ao passo que Beethoven viveu entre 1770 e 1827. Logo, se os dois chegaram a travar algum diálogo, foi no máximo quando Beethoven tinha apenas 11 anos de idade… Entretanto, ele só se mudou para Viena, cidade aonde vivia Mozart, em 1791, após a morte deste, que se deu dez anos antes…
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O que mais me chamou a atenção foi a firmeza da informação dada pelo homem que se dizia conhecedor da história da música clássica. Deu até certa impostura na voz para ganhar mais credibilidade! E é muito provável que o segundo homem da conversa tenha saído convencido da informação prestada pelo instruído amigo, e que passe esta informação adiante…
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No âmbito da teologia e da doutrina cristãs, a coisa não é muito diferente… Temos muitas pessoas em nosso meio que pegam informações de terceiros, de fontes não confiáveis, e passam esta informação adiante, como se fora a mais sublime das verdades.
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O assunto desta semana foi uma entrevista dada por alguns integrantes da família Valadão, que ganhou espaço nos blogs e nas redes sociais com debates acalorados, defesas apaixonadas e coisas assim. Segundo eles, Jesus foi um homem rico, vestia-se de roupas finas e caras, possuía uma grande casa em Jerusalém e andava de jumento, um animal que na época correspondia a um BMW, um carro de luxo dos nossos dias. José e Maria, pais do Senhor, também eram ricos, pois José era um carpinteiro bem sucedido.
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Estas informações, lamentavelmente, podem ser perfeitamente comparadas ao diálogo sobre música clássica que presenciei… Sem fundamento ─ ou pelo menos sem qualquer fundamento bíblico.
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Pr da Assembléia de Deus - Kenneth E. Hagin - proclamador da Teologia da Prosperidade
A origem desta idéia é da chamada “Teologia da Prosperidade”, mais precisamente  de um pregador americano chamado Kenneth Hagin, um dos seus expoentes. Ele disse em seu livro A AUTORIDADE DO CRENTE (p. 32): “Muitos crentes confundem humildade com pobreza. Um pregador certa vez me disse que fulano possuía humildade, porque andava num carro muito velho. Repliquei: ‘Isso não é ser humilde ─ isto é ser ignorante’. A idéia que o pregador tinha de humildade era a de dirigir um carro velho. Um outro observou: ‘Sabe, Jesus e os discípulos nunca andaram num Cadillac’. Não havia Cadillac naquela época. Mas Jesus andou num jumento. Era o ‘Cadillac’ da época ─ o melhor meio de transporte existente”. Já a afirmativa de que Jesus tinha uma casa em Jerusalém pertence a John Avanzini, outro expoente da citada “Teologia”, que afirma que Jesus e os apóstolos eram ricos. “Não consigo identificar onde essas tradições bobas entraram, porém a mais estúpida de todas é a de que Jesus e seus discípulos eram pobres. Nada existe na Bíblia que dê base a esta afirmação [...] Jesus tinha uma grande e bela casa em Jerusalém” (AVANZINI, Citado em H. HANEGRAAFF, Cristianismo em Crise, Rio de Janeiro, CPAD, 1996, p. 202).
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Gostaria de deixar alguns comentários acerca do assunto em pauta…
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Em primeiro lugar, informações precisam ser devidamente checadas antes de serem passadas adiante, senão poderemos ser chamados de divulgadores de inverdades, mesmo que as façamos com a melhor das intenções. Conheço pessoas que afirmam que existem 365 vezes na Bíblia a expressão “não temas”, mas qualquer pessoa que tenha uma Bíblia eletrônica em seu computador pode fazer uma pesquisa e constatar que nem 100 vezes tal expressão é repetida no texto sagrado! Por melhor que seja a intenção de quem divulga tal dado, trata-se de uma inverdade.
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Não podemos acreditar em tudo o que ouvimos sem nos darmos ao trabalho de checar a informação, principalmente no âmbito da doutrina e da teologia. Era isto que os crentes de Beréia faziam, e por este zelo em confirmar as informações nas Escrituras foram elogiados:
Ora estes [judeus de Beréia] foram mais nobres do que os que estavam em Tessalônica, porque de bom grado receberam a palavra, EXAMINANDO CADA DIA, NAS ESCRITURAS, SE ESTAS COISAS ERAM ASSIM (At 17:11 – colchetes e grifos meus).
Portanto, antes de disseminar uma idéia de Kenneth Hagin, John Avanzini ou de quem quer que seja, a obrigação ─ minha, sua e de qualquer cristão  é de verificar na Bíblia se as coisas são mesmo assim. Portanto, vamos verificar juntos…
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Jesus não era rico ─ ou pelo menos não há nenhuma referência bíblica que indique isto. Pelo contrário, Ele próprio afirmou:
as raposas têm covis, e as aves do céu têm ninhos, mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça” (Mt 8:20).
Paulo afirma que Ele, o Senhor,
sendo rico, por amor de vós se fez pobre, para que pela sua pobreza enriquecêsseis” (2 Co 8:9).
Se Ele fosse tão rico como apregoam os expoentes da prosperidade, como precisava de mulheres ricas que financiassem Seu ministério (Lc 8:1-3)? Por que então Ele não sacou de sua bolsa as didracmas de seu imposto, mas mandou Pedro pescar um peixe e recolher uma moeda de suas entranhas para fazer tal pagamento (Mt 17:24-27)?
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Os pais de Jesus não eram ricos. A maior prova disto é que, na apresentação de Jesus por ocasião de sua circuncisão ao oitavo dia de vida, eles trouxeram a oferta do pobre prevista na Lei de Moisés. Vejamos:
E, quando os oito dias foram cumpridos, para circuncidar o menino, foi-lhe dado o nome de Jesus, que pelo anjo lhe fora posto, antes de ser concebido. E, cumprindo-se os dias da purificação, segundo a lei de Moisés, o levaram a Jerusalém, para o apresentarem ao Senhor (Segundo o que está escrito na lei do Senhor: Todo o macho primogênito será consagrado ao Senhor); E para darem a oferta segundo o disposto na lei do Senhor: UM PAR DE ROLAS OU DOIS POMBINHOS.” (Lc 2:21-24 – grifos meus).
Comparemos com o texto da Lei:
E, quando forem cumpridos os dias da sua purificação, por filho ou por filha, trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da tenda da congregação, ao sacerdote, o qual o oferecerá perante o Senhor, e por ela fará propiciação; e será limpa do fluxo do seu sangue; esta é a lei da que der à luz varão ou fêmea. MAS, SE SUAS POSSES NÃO LHE PERMITIREM TRAZER UM CORDEIRO [OU SEJA, SE FOR POBRE], ENTÃO TOMARÁ DUAS ROLAS, OU DOIS POMBINHOS, um para o holocausto e outro para a expiação do pecado; assim o sacerdote, por ela, fará propiciação, e será limpa” (Lv 12:6-8 – grifos e colchetes meus).
Por que José e Maria, sendo ricos (como afirmam os “expoentes da TP) deram a oferta dos pobres?
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Em momento algum a Bíblia menciona que Jesus era dono de algum jumento. Quando o Mestre precisou de um animal de montaria para entrar em Jerusalém, tomou-o emprestado (Mt 21:1-5). O próprio profeta que profetizou a vinda do Messias montado em um jumento dá testemunho de sua pobreza, ao afirmar:
Alegra-te muito, ó filha de Sião; exulta, ó filha de Jerusalém: eis que o teu rei virá a ti, justo e Salvador, POBRE, e montado sobre um jumento, sobre um asninho, filho de jumenta” (Zc 9:9 – grifo meu).
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Qual seria o carro de Jesus?
Qualquer pessoa de bom senso e equilíbrio saberá que, mesmo considerando os tempos de Jesus, não dá para comparar um jumento como uma BMW dos dias atuais. Os ricos não andavam de jumento, e sim de carruagens (At 8:26-28). No máximo, forçando muito a barra, poderíamos comparar o jumento a um fusquinha 1966… E repetimos: o jumento era emprestado!
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Em relação à grande e luxuosa casa que pertencia a Jesus em Jerusalém, não sabemos de onde se tirou esta informação, já que não está na Bíblia… À vista desta afirmativa, não entendemos duas coisas: primeiro, porque Jesus solicitou emprestado um cenáculo em Jerusalém para realizar a sua última ceia com os seus discípulos (Mateus 26.17-19), já que Ele possuía esta bela e grande casa e poderia muito bem fazer esta última reunião no conforto do Seu lar? Segundo, com que base bíblica (ou mesmo extrabíblica) Avanzini e os demais “profetas da prosperidade” afirmam isto com tanta convicção? Alguma “revelação” do alto??
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Não estou aqui para denegrir qualquer pessoa, principalmente os membros da família citada. Estou aqui para defender a disseminação do erro na Igreja do Senhor Jesus, principalmente  joio nocivo da “Teologia da Prosperidade”. Estou aqui para aconselhar a todos, envolvidos ou não nesta infeliz entrevista,que não dissemine doutrinas estranhas na Igreja do Senhor, não acrescentem às Escrituras o que lá não está, não se ponha debaixo de maldição ao alterar a Bíblia e assim ensiná-la aos pequeninos do Senhor (Mt 5:19; Ap 22:18-19).
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Não estou aqui para afirmar que Jesus era miserável, mendigo. A Bíblia não afirma isto,da mesma forma que não afirma que Ele e os seus apóstolos eram ricos.


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