17 de fev de 2012

"O maior inimigo de Jesus é o Cristianismo"


Li esta frase hoje no Facebook. O problema dela é que não define nem Jesus e nem Cristianismo. Existem muitas concepções de Jesus e mais ainda do Cristianismo. Assim, a frase pode significar várias coisas para diferentes pessoas. Por exemplo.

Se o autor for um desigrejado, daquele tipo que quer Jesus mas não quer a igreja, ele deve entender, ao que parece, que Jesus era uma espécie de líder informal de um grupo desorganizado de pescadores, grupo este que após a sua morte se multiplicou em outros grupos que se encontravam em qualquer lugar, sem liderança, sem estrutura alguma, onde as coisas aconteciam sem planejamento e sem estrutura, ao sabor do "Espírito", onde não havia normas, críticas e o amor predominava. E Cristinianismo, para ele, deve ser uma religião que deturpou completamente este grupo informal de andarilhos, pois construiu templos, instituiu ofícios, estruturou liturgias, organizou-se hierarquicamente, criou credos doutrinários e confissões de fé, estabeleceu a disciplina eclesiástica e criou normas. E ao fazer isto, desviou-se de Jesus e de sua mensagem simples. E por usar o nome de Jesus, sendo uma religião que nada tem a ver com ele, se torna seu pior inimigo.


O problema com esta conceituação é que o desigrejado parece não conhecer direito nem Jesus e nem o Cristianismo histórico. Pois Jesus tinha muito pouco de informal na organização de seus discípulos e o Cristianismo nem sempre fez de sua estrutura e organização um fim em si mesmas.

Se o autor for um liberal, daquele tipo que faz a diferença entre o Jesus da história e o Cristo da fé, Jesus era um reformador judeu, à semelhança dos antigos profetas, que queria reformar o judaismo de seus dias e restabelecer a piedade da Torá, perdida no período dos Macabeus. Quem fundou o Cristianismo foi um de seus discípulos, um judeu chamado Saulo de Tarso, que tomou alguns conceitos ensinados por Jesus, bem como suas próprias interpretações da pessoa de Jesus, e os reformulou e adaptou a conceitos que ele já tinha antes, oriundos das religiões gregas e do gnosticismo. Portanto, o fundador do Cristianismo é Paulo e esta religião é diferente e distinta daquilo que Jesus ensinou. Ao criar o Cristianismo do Cristo da fé Paulo o tornou no maior inimigo do Jesus da história.

O problema do liberal é que ele rejeita o quadro que os Evangelhos nos dão de Jesus e também a autoria paulina da maioria das cartas que trazem o nome de Paulo. Ele reconstrói o cenário do cristianismo primitivo a partir das religiões pagãs, do gnosticismo e dos evangelhos apócrifos.

Creio que os Evangelhos nos deixam claro que Jesus passou aos seus discipulos determinadas instruções que, para serem seguidas, exigiriam alguma medida de organização, estruturação, hierarquia e formalização. Assim, a Igreja cristã, seguindo as orientações de Jesus, já nasceu estruturada e organizada. Eu não me refiro a templos, organistas, liturgia fixa, ou coisa do gênero. É claro que estas coisas foram acrescentadas ao longo do tempo. O que eu quero dizer é que, de acordo com o livro de Atos e as cartas dos apóstolos a igreja cristã tinha liderança, confissões, hierarquia, ofícios, e dois sacramentos ou ordenanças (ceia e batismo) além do exercício da disciplina. Estas coisas confirguram uma organização, ou um organismo estruturado, que veio a ter o nome de Cristianismo. Ou seja, não era uma fraternidade informal que se encontrava para bater papo sobre coisas espirituais. Portanto, não se pode ser contra o Cristianismo somente porque é uma religião organizada.

Já escrevi um artigo extenso aqui no blog sobre este assunto, onde mostro a base bíblica para a organização e estruturação das igrejas locais. Veja aqui.

Concordo que existem regras, liturgias e praxis no Cristianismo que são humanas e desnecessárias, mas isto não quer dizer que não existam regras, normas, e um grau de organização que foram determinados por Deus para a Igreja. Pensar que a Igreja de Cristo não tem um mínimo de organização, regras e normas é anarquia eclesiástica.

O Cristianismo só é o maior inimigo de Jesus quando deixa de professá-lo como Senhor e Salvador, quando nega sua morte vicária na cruz pelos nossos pecados, quando rejeita sua ressurreição e sua vinda, quando usa seu nome para arrecadar dinheiro para enriquecimento pessoal ou para promoção da própria glória, se seculariza, se mundaniza e deixa de ser sal e luz. É uma ignorância profunda passar uma condenação generalizada sobre todos os cristãos de serem inimigos de Jesus.

Seria bom saber se o autor da frase se considera amigo de Jesus, e por que.



Fonte: O Tempora, O Mores

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