12 de jun de 2012

Eu queria mudar a Bíblia


Ai de mim mexer numa vírgula sequer da Bíblia. Creio nela como a revelação do Ser de Deus, na sua inerrância, que é nossa regra de fé e prática. Respeito-a. Assim como um advogado tem de seguir a lei criminal; um motorista, a lei do trânsito; um médico, o juramento de Hipócrates; e um juiz a Constituição; ser cristão e não seguir a Bíblia é absolutamente impensável. Somos “o povo do livro”, os “bíblias”, os que baseiam sua fé num dos pilares da Reforma, Sola Scriptura. Sem a Bíblia, não somos nada enquanto seguidores de Cristo. Os liberais chamam isso de “bibliolatria”. Mas não há fé em Cristo sem fé na Bíblia, pois foi por meio dela que o Deus encarnado decidiu se revelar – não foi pela revista “Superinteressante” ou pelo “Código DaVinci”. Jesus quis que o conhecimento a respeito de seu Ser, de seus ensinamentos e do caminho da salvação fosse conhecido por meio dessa reunião de 66 cartas, poemas, livros e textos. Ou se crê nisso ou não se é cristão. Mas confesso que tenho uma gigantesca tentação: se eu pudesse (sei que não posso, mas se pudesse…) eu mudaria um trecho das Escrituras.
Não sou o primeiro a confessar isso. O próprio escritor evangélico C.S.Lewis disse a respeito do inferno: “Não há nenhuma doutrina que eu removeria de mais bom grado do cristianismo do que isto, se eu tivesse o poder. Mas essa doutrina tem o pleno apoio das Escrituras, e sobretudo das próprias palavras do nosso Senhor”. Se Lewis pudesse, removeria o conceito do inferno da Bíblia. Eu, se pudesse, mudaria o grande mandamento. E antes que você me considere um herege, vamos ao texto:
“Um dos mestres da lei aproximou-se e os ouviu discutindo. Notando que Jesus lhes dera uma boa resposta, perguntou-lhe: ‘De todos os mandamentos, qual é o mais importante?’ Respondeu Jesus: ‘O mais importante é este: Ouve, ó Israel, o Senhor, o nosso Deus, o Senhor é o único Senhor. Ame o Senhor, o seu Deus, de todo o seu coração, de toda a sua alma, de todo o seu entendimento e de todas as suas forças. O segundo é este: Ame o seu próximo como a si mesmo. Não existe mandamento maior do que estes’.” (Mc 12.28-31).
A parte a que quero me ater é esta: “Ame o seu próximo como a si mesmo”. Se formos pensar, ela nos propõe que o padrão de comparação para o amor que devemos devotar às outras pessoas é o que devotamos a nós mesmos. Ou seja: se eu me amo muito e faço tudo por mim, devo reproduzir isso na minha relação com as demais pessoas. É interessante que essa é uma proposta voltada para o “eu”. Põe a mim no centro, uma vez que o benefício que eu recebo beneficia o próximo, o amor que tenho pelo “eu” é o que será transferido para o outro. Deus sabe que o “eu” se ama tanto que o usou de parâmetro para balizar o amor que devemos transferir aos demais.
Chega a soar curioso nos nossos dias pensar nisso. Nessa era de consumismo cristão, em que vivemos o me-dá-me-dá-me-dá da fé, alcançar a compreensão de que a religião cristã usa-nos em prol do próximo nos atribui uma tremenda responsabilidade e é um grande exercício de humildade. Também denuncia como certos setores da Igreja estão longe demais da proposta bíblica. Há teólogos que se acham inerrantes. Há pastores que se põem como senhores do castelo. Há blogueiros que agem como detentores do conhecimento máximo. Todo mundo se acha o must, sejamos honestos. Nunca a “minha verdade” foi tão aguerridamente defendida como em nossos dias. Estão aí as redes sociais para ilustrar isso. Só que, curiosamente, a transferência dessa egolatria em amor para o próximo é ridiculamente mínima. É a MINHA família que importa. O MEU ministério. O MEU nome estampado no outdoor. Mas pouco fazemos para que isso seja aplicado ao irmão ou ao não cristão. E erramos ao fazer isso.
Proponho então fazermos um exercício de imaginação. Conjecture se fosse o contrário. Se o mandamento fosse: “Ame a si mesmo como ao próximo”. Ou seja, os demais seriam o padrão para o quanto devemos amar a nós mesmos. Imagine que você só fosse fazer por si o que faz pelos outros. Só fosse aceitar benefícios se alguém recebesse também. Jesus… o mundo viraria de cabeça para baixo. Pense nessa fantasia: você só se trata bem se trata os outros bem. Só permite que te elogiem se você elogiar os outros. Só se alimenta de delícias culinárias se antes alguma outra pessoa possa desfrutar dessa refeição. Teríamos literalmente de “fazer a si mesmo o que gostaria que fizessem ao seu próximo”.
Para começar, as igrejas neopentecostais fechariam, falidas. Pois ninguém mais iria em busca de bênçãos para si, prosperidade financeira para si, saúde, emprego. Todos estariam preocupados em abençoar o próximo para, só depois, pensar em si. Não haveria mais “campanhas de sete semanas” para EU obter o que EU desejo para MIM. Os pastores empresários que lucram com a pregação mentirosa que promete (vende, vai) vitória em troca de campanhas e de dinheiro não teriam mais a falsa vitória para oferecer, pois ninguém buscaria mais vitória em Cristo para si. E meu livro A Verdadeira Vitória do Cristão não existiria, pois eu não o teria escrito para desmentir esse falso triunfalismo e mostrar o que a Bíblia diz sobre o real significado de “vitória”.
Não haveria um único pastor que não passaria o dia orando por cada membro de suas congregações, visitando, indo a hospitais, segurando a mão de leprosos, subindo as favelas se preciso, devotando-se de fato ao próximo. Abrindo mão da sua vida pela vida das ovelhas. Seu bem-estar dependeria, afinal, do bem-estar dos membros. Assim, não haveria feridos. O movimento dos desigrejados decepcionados com a igreja acabaria. As igrejas-show usariam menos parafernália e os músicos fariam letras cristocêntricas e bíblicas, pois como os responsáveis desejariam de fato conduzir a congregação a um louvor que a religasse ao Criador, como gostaria que fosse consigo, não criariam músicas antropocêntricas ou vazias biblicamente por razões puramente comerciais. Teríamos, assim, louvores que de fato engrandecessem a pessoa e os feitos de Deus e não canções voltadas ao que o homem pode receber dele ou feitas só para emocionar. Imagine! Os momentos de louvor seriam de fato períodos onde o Rei dos Reis seria exaltado. Seria lindo. Os músicos se recusariam a participar de festivais em emissoras de TV por saber que aquilo ali levaria o público a lugar algum na espiritualidade. E daí se isso faria o grupo musical vender menos CDs? O importante seria o próximo e não a conta bancária do artista.
As pregações não teriam como objetivo agradar os membros para que os pastores fossem reeleitos. Falar-se-ia abertamente contra o pecado e as mensagens deixariam claro que o Evangelho verdadeiro de Jesus não nos isenta de dores, doenças e tristezas nesta vida. Receberíamos do púlpito sermões responsáveis, bíblicos e todos escutariam em silêncio, pensando durante a pregação como aquilo que estava ouvindo poderia ser aplicado em suas vidas para aproximar mais cada um de Deus. E sairíamos do culto moídos pelo peso do nosso pecado e dispostos a mudar e não dizendo “o culto hoje foi uma bênção!”. Haveria mais lágrimas do que pulinhos e gritinhos.
Os irmãos nas igrejas se tratariam com amor, respeito, sem maledicências, fofocas ou acusções – pois se eu maldissesse alguém estaria desejando isso para mim também, afinal. O perdão entre irmãos seria diário. Ninguém buscaria o próprio interesse e sempre preferiria os outros em honra. Seria extraordinário ver pessoas usando os dons para a edificação real do Corpo e não para se promover como “o profeta da vez”, os líderes de departamento não quereriam se sentar nos lugares mais altos da plataforma e nenhum político jamais subiria num púlpito para fazer propaganda eleitoral.
O evangelismo. Pense no evangelismo! As pessoas desejariam ardentemente que as almas perdidas fossem salvas pela graça de Cristo e não mediriam esforços para pregar o autêntico Evangelho de Jesus Cristo – pois quem de nós não gostaria de ser salvo? Então, dentro do “amar a mim mesmo como ao próximo”, pregaríamos o plano de salvação e só, sem prometer bênçãos nessa vida, emprego, carro do ano, nada. Diríamos claramente que no mundo teríamos aflições mas que a vida eterna estaria reservada para nós. O discipulado homem a homem ganharia força e importância: todos se preocupariam em discipular os novos na fé. Haveria mais mártires. Menos astros. Nenhuma celebridade gospel. Que lindo seria!
Ah, tanto mais poderíamos utopizar nesse exercício de imaginação, que nos levaria a fazer, a começar por mim, tudo o de melhor pelo próximo – pois só assim receberíamos o melhor. Primeiro, você. Depois, eu. Um sonho bonito de ser sonhado.
Todavia, não foi assim que Deus quis. Ele estabeleceu que “amássemos o próximo como a nós mesmos”. Em sua absoluta soberania, Ele sabe o porquê. A mim cabe supor, apenas. Não posso afirmar, não sou divino para compreender a mente de Deus. Mas tenho minhas teorias. Acredito que, ao estabelecer esse parâmetro de comparação, o Altíssimo queria não que exercitássemos e desenvolvêssemos o amor por nós mesmos, a ponto de amar os outros tanto quanto nos amamos. Um deus que estimulasse a egolatria não seria o mesmo que revelou-se pela Bíblia. Por isso, creio que o Senhor nos incentiva a buscar a humildade, a abnegação, a paz, o fruto do Espírito.
Pois, se queremos uma sociedade onde o próximo seja aquilo que idealizamos, pessoas que não atacam umas as outras, que não se caluniam, que não tem prazer na desgraça alheia, que não roubam, não matam, não têm sede desumana por poder ou dinheiro, que agem com amor e que vivem uma existência pacífica, assim também Deus espera que nosso exemplo seja. Que amemos não apenas a nós mesmos, a nossas pessoas, mas as nossas virtudes. E que desenvolvamos as mesmas virtudes que amamos ver nos outros…em nós.
Sim, “amar o próximo como a mim mesmo” é uma proposta revolucionária. Me humilha profundamente e me põe no meu devido lugar. Um lugar onde tenho de dar o exemplo, se o desejo ver nos outros. Como isso é difícil! Se amo certas qualidades nas demais pessoas, antes tenho de tê-las em mim. Que Deus me ajude, porque essa é uma responsabilidade da qual não dou conta sozinho, pois carrego dentro de mim a semente do mal e do pecado. Por isso preciso dela a cada novo dia: a graça do Soberano. Bendita Cruz, que me dá forças que por mim mesmo não tenho para amar a Deus sobre todas as coisas e negar-me a mim mesmo a tal ponto de ser capaz de amar o próximo como a mim mesmo.
Paz a todos vocês que estão em Cristo.

Fonte: Gospel+

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