19 de ago de 2012

Onde é que foi parar aquele menino?





Eu não queria estar na pele dele naquele dia.  A missão que recebera do Senhor era a mais complicada de sua trajetória de profeta.  Como dizer ao homem mais poderoso do mundo que ele estava em pecado? Como confrontar aquele que se acostumara com alcunha de “homem segundo o coração de Deus”?

Ainda com olheiras que denunciavam a noite mal dormida, Natã se dirigia ao palácio de Davi. Enquanto caminhava, se indagava:

- O que aconteceu com Davi? Ele está irreconhecível! Aonde foi parar aquele menino que pastoreava as ovelhas do seu pai? Será que ele vai receber bem a palavra que o Senhor me ordenou que lhe dissesse? Será que amanhã a estas horas ainda estarei vivo? Já não bastou ter que dizer a ele que Deus não lhe permitiu construir o tão sonhado templo?

O fato é que Davi pecara contra o Senhor. Seu pecado teria que ser exposto e confrontado.

Dias antes, enquanto seu exército lutava bravamente por seu reino, Davi, que sempre estava à frente da batalha, resolveu tirar uns dias de folga, desfrutando do requinte de seu palácio real.

Numa bela tarde, enquanto passeava no terraço, avistou uma mulher que se banhava, e que, a seus olhos, parecia se insinuar. Foi paixão fulminante à primeira vista. Davi não titubeou, e mesmo sabendo que era mulher de um dos homens mais leais de seu exército, mandou trazê-la aos seus aposentos e a possuiu.

Tudo não teria passado de uma puladinha de cerca básica não fosse a inusitada notícia: Bate-seba estava grávida.  E agora, José? Ou melhor... e agora, Davi?

Desesperado ante a possibilidade de ter seu pecado exposto à opinião pública, o que traria enorme desgaste à sua imagem, Davi arquitetou um plano. Mandou chamar Urias e tentou convencê-lo de tirar alguns dias de descanso, curtindo sua linda e carente mulher. Para todos os efeitos, a criança seria resultado daquelas noites de amor. Mas para sua surpresa, Urias disse não.

- Como eu poderia usufruir do amor de minha mulher sabendo que meus homens estão no front de batalha? Obrigado pela oferta, rei. Mas minha resposta é não.

Davi ainda tentou embriagá-lo, mas não adiantou. Urias não cedeu.

Só restou-lhe uma alternativa. Enviou, por mãos do próprio Urias, uma carta ordenando que Joabe, seu general, pusesse-o à frente da batalha, e quando os inimigos atacassem, retiram-se, deixando-o sozinho. Davi confiava tanto em Urias que sabia que ele não abria a carta que continha sua sentença.

Se Davi tivesse um espelho mágico semelhante à rainha má do conto de Branca de Neve, e lhe perguntasse: “Espelho, espelho meu, haveria no reino alguém mais íntegro do que eu?”, ele certamente responderia: “Sim! Urias.” Por isso, Davi tinha dois motivos para desejar a morte de Urias. 

Como Davi conseguiu dormir depois disso? Onde foi parar aquele menino que derrotara Golias e se tornara na maior referência de heroísmo que Israel tivera em toda a sua história? Em que ele se transformou?
Agora o velho Natã tinha que confrontá-lo.

Tanto Deus, quanto Natã sabiam que Davi apresentaria algum argumento para justificar seu pecado. Por isso, inspirado pelo Espírito, Natan resolveu tomar uma via inusitada para alcançar a sua consciência.

Em vez de confronto direto, Natan contou-lhe uma estória que transcrevo abaixo:

“O Senhor, pois, enviou Natã a Davi. E, entrando ele a ter com Davi, disse-lhe: Havia numa cidade dois homens, um rico e outro pobre. O rico tinha rebanhos e manadas em grande número; mas o pobre não tinha coisa alguma, senão uma pequena cordeira que comprara e criara; ela crescera em companhia dele e de seus filhos; do seu bocado comia, do seu copo bebia, e dormia em seu regaço; e ele a tinha como filha. Chegou um viajante à casa do rico; e este, não querendo tomar das suas ovelhas e do seu gado para guisar para o viajante que viera a ele, tomou a cordeira do pobre e a preparou para o seu hóspede. Então a ira de Davi se acendeu em grande maneira contra aquele homem; e disse a Natã: Vive o Senhor, que digno de morte é o homem que fez isso. Pela cordeira restituirá o quádruplo, porque fez tal coisa, e não teve compaixão. Então disse Natã a Davi: Esse homem és tu!” 2 Samuel 12:1-7

Davi fora pego em suas próprias palavras! Ele mesmo lavrou sua sentença. Nem mesmo chegou a usar qualquer argumento para justificar-se, pois fora sumariamente desarmado diante dos olhos de todos os que o rodeavam.

Creio que Natã usou aquela estorinha envolvendo ovelhas, rebanhos, para de alguma maneira relembrar a Davi de onde Deus o tirara. Num encontro anterior entre Natã e Davi, Deus lhe dissera pela boca do profeta: “Eu te tomei da malhada, de detrás das ovelhas, para que fosses príncipe sobre o meu povo, sobre Israel” (2 Sm. 7:8).

Mas agora, ele já não trazia consigo o cheiro das ovelhas. Os odores palacianos o substituíram. O mesmo filho de Jessé que se atracara com um urso e um leão para livrar uma única ovelha do rebanho que seu pai lhe confiara, transformara-se num insaciável predador.

Naquele dia, através dos lábios do profeta, o velho Davi recebeu a visita do menino Davi.

Se fôssemos visitados hoje por quem éramos quando meninos, será que seríamos reconhecidos? Em que temos nos tornado? Teríamos orgulho ou vergonha de nós mesmos? Como explicaríamos aos pastorzinho de ovelhas as atitudes precipitadas tomadas pelo rei?

Como seria receber a visita do Hermes de 33 anos atrás, que com o coração cheio de alegria descia às águas batismais? Em que me tornei, afinal?

Teremos perdido o idealismo? Tornamo-nos cínicos, gananciosos, presunçosos, insuportáveis? Que sentença a criança que fomos aplicaria ao adulto em que nos tornamos?

O problema é que nunca estamos satisfeitos com o que temos. Queremos sempre mais... Não nos contentamos com a vida com abundância prometida por Jesus, e reivindicamos uma vida com ganância proposta por um Cristo impostor.

O mesmo Davi que um dia compôs um dos mais célebres salmos de todos os tempos, dizendo que o Senhor era seu pastor e que nada lhe faltaria, finalmente encontrou algo que lhe faltava: a mulher do seu próximo.

Estamos mais preocupados com o que temos adquirido, do que com o que temos nos tornado. Por mais que sejamos bem-sucedidos do ponto de vista profissional, material, ou mesmo familiar, queremos mais... E para isso, pisamos em todos os valores que antes nos eram caros. Vendemos a nossa alma a preço de banana. Mesmo tendo um harém à nossa disposição, não é o bastante. Queremos Bate-seba. Queremos a mulher de Urias.

Onde é que foi parar aquele menino...

Se o virem por aí, diga que estou com saudade.

Saudade de quem um dia era. Saudade da minha ingenuidade. Do meu romantismo. Do meu primeiro amor. Quem sabe Deus use um velho profeta para me fazer relembrar o cheiro das ovelhas do meu pai.

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