15 de set de 2012

Cristianismo e Política


   As eleições municipais estão se aproximando e nosso contexto atual não está muito propício ao otimismo. A crise de liderança política atinge a todas as nações e a nossa tem sofrido muito. Diante disso qual deve ser nosso papel como cristãos? Isolar-nos e rejeitar todo e qualquer envolvimento político? Ou será que devemos criar um partido ou nos associar a candidatos do meio evangélico para defender os interesses da igreja?
   Por perceber a necessidade de responder essas perguntas, resolvi escrever esse artigo. 
  Muitos cristãos tem se aventurado na política sob pretexto de salvar a igreja dos ataques do mundo. Alguns se envolvem em partidos cujos ideais são opostos ao aos ideais cristãos e ainda acham que vão transformar o mundo. Mas infelizmente não é isso que muitos dos candidatos que usam o evangelho como plataforma de governo tem em mente. Há uma busca de interesses denominacionais, partidários e até mesmo particulares.
   Existem candidatos que entram na política para defender sua denominação. Eles se ajuntam e formam um colégio eleitoral onde se comprometem a eleger o candidato tal, que é da denominação tal, para defender os direitos dela.
  Outros são lançados na política com interesses puramente eleitoreiros. São partidos que enxergam o público evangélico como uma grande fatia do mercado e investem nos candidatos evangélicos apenas para eleger seus partidos.
  E há aqueles cujo objetivo maior é apenas a satisfação de seus interesses pessoais. Quanto a estes não tenho muito o que dizer. Seus objetivos falam por si só.
  Eu reconheço que há muito que mudar no quadro político do país. E que a idéia de candidatos com princípios cristãos seja muito tentadora do ponto de vista ético para consertar esta situação. Mas será que só o fato de ser cristão habilita alguém a um cargo publico?

Somos criaturas políticas

  A política é um dom de Deus. É por causa da imagem de Deus no homem que este é um ser político.
  Numa conceituação moderna, política é a ciência moral normativa do governo da sociedade civil[1]. Neste sentido, política está relacionada ao mandato social. Já no ato da criação o Senhor deu ao homem tarefas políticas: crescer, multiplicar, cultivar o jardim... todas essas ordens são políticas.
  Por isso o problema não é com a política, mas com o homem. Por causa da queda, a corrupção do pecado afetou toda capacidade humana de desenvolver de forma correta o potencial que Deus lhe deu na criação. A política não é corrupta, os homens políticos (falo de todos os homens em geral e não apenas candidatos) é que são. Por isso o papel do cristianismo na política é de grande importância.
  O cristianismo não é uma religião meramente restrita aos atos de adoração litúrgica nos templos cristãos. O cristianismo é uma religião de princípios que afetam a maneira de enxergar a vida em todas as suas áreas. Paulo diz que a Escritura, que é a única regra de fé e prática, é capaz de tornar o homem “perfeito para toda boa obra” (2 Tm 3.16,17). Isso inclui a política.
  Quer dizer que todos os cristãos devem se tornar candidatos ao um cargo público? Não! Isso é apenas para mostrar que nós não podemos nos alienar da política e viver como se não tivesse nada a ver conosco.
  O papel da Igreja é ser instrumento de Deus na obra de salvação que faz do homem uma nova criatura capaz de exercer os dons que Ele deu em todas as áreas da existência humana, inclusive na política. O papel da Igreja é pregar o evangelho que transforma vidas. É manter um comportamento ético que faça diferença além dos muros do templo.
  E se algum cristão tem o dom e o chamado para política pública, este deve assumir sua responsabilidade e exercer seu mandato guiado por uma cosmovisão bíblica. E a igreja deve orar por ele encomendando-o à graça de Deus. Isso significa que devemos formar um partido cristão, ou manifestar apoio público a algum candidato cristão?

Política para todos

  Muitos cristãos tem se candidatado a cargos públicos. Muitas igrejas têm buscado votar em candidatos de suas denominações. E isso não é pecaminoso se a motivação for um governo justo para todas as pessoas e não apenas para defender interesses pessoais e ou de um grupo em detrimento da maioria.
  Na Teologia Bíblica existe um aspecto da doutrina da Graça chamado de Graça Comum. Esta é aquela ação proveniente da graça de Deus pelo qual ele cuida e sustenta todos os homens em geral, e age no mundo de tal maneira a restringir os males de suas ações, e por meio delas, proclamar Sua Glória.
  A graça comum inclui a capacidade dos homens de produzir arte, tecnologia, avanços científicos, zelar pela ética e pela moral, ainda que sejam corruptos e não tenham qualquer temor de Deus em seu coração. Deus é quem faz isso para que sua glória seja proclamada e o mundo viva em razoável tranqüilidade.
  Dentro da graça comum está a capacidade política do ser humano. Uma pessoa pode não ser cristã e ainda assim realizar um governo excelente em prol de todos e não apenas de alguns, como deve ser a política bem feita.
  Cristãos que foram devidamente vocacionados por Deus para a política, que exerçam uma liderança eficaz para todas as pessoas, que demonstrem capacidade para assumir o que o cargo público exige, devem ser o alvo de nossas orações e votos.
  Não apenas pelo fato de ser crente, mas de ser habilitado para isso. Cristãos que se candidatam apenas para defender igreja devem ser rejeitados. Por sua graça, Deus cuida do bem comum de todos e não apenas de alguns. Não devemos ser partidaristas, mas correspondendo ao mandamento de amar ao próximo devemos selecionar aqueles que de fato estão interessados no bem estar comum, sejam crentes ou não.
   Lembremos que Deus é glorificado em tudo, quer na vida correta do justo, sobre os quais resplandece sua graça e misericórdia, quer na impiedade dos ímpios, sobre os quais pesa sua ira e justa condenação.   
  Assim não é obrigatório votar em cristãos, mas é imprescindível votarmos naqueles que foram dotados por Deus de habilidades governamentais e de liderança, quer sejam crentes ou não. Isso demanda atenção, oração e cuidado na hora da escolha.

 Concluindo, nós cristãos temos um papel singular na política pública. Temos a responsabilidade de pregar o evangelho que habilita o homem para toda boa obra; a responsabilidade de incentivar àqueles que foram dotados por Deus para o exercício da política pública; a responsabilidade de votar consciente e em busca do bem comum; e a responsabilidade de orar por aqueles que se acham investido de autoridade. 

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