10 de mai de 2013

Quando um poodle é melhor que um leão


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Por Clint Archer


Apesar de ter algumas boas memórias da minha avó, ela tinha um gosto particular muito estranho: um incomum amor por taxidermia. Sua cara era infestada de inúmeros animais empalhados. Da cabeça de búfalo ameaçadora que nos recebia à porta ao antílope de olhos vidrados que guardava a escadaria, passando pelo Milhafre amarelo que me vigiava enquanto brincava com os trenzinhos. Era um lugar bem chocante e intimidador para passar um fim de semana, e responde por boa parte da explicação de porque eu tenho uma certa agorafobia que me faz preferir hotéis fechados a lugares muito abertos.

Mas o mais terrível dos troféus eram as peles de leão e leopardo. E minha querida avó não fazia nenhum esforço para acalentar meu medo de que essas criaturas ainda eram capazes de me abocanhar se eu chegasse muito perto.

Ainda bem que nada disso me traumatizou; eu ainda assim quis ter um cachorro. Meu primeiro filhotinho foi um vira-lata. Feio, desgrenhado e burro como um burro, mas eu ainda prefiro aquele rascunho de cachorro a qualquer leão, leopardo ou qualquer coisa desse tipo empalhados.

Qualquer pessoa entende que um poodle vivo é melhor que um leão morto (claro que um poodle empalhado também não é uma má ideia…). O Rei Salomão usa esse tipo de sabedoria excêntrica de forma inesperada em Eclesiastes 9: Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. Porque os vivos sabem que hão de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem tampouco terão eles recompensa, porque a sua memória jaz no esquecimento. Amor, ódio e inveja para eles já pereceram; para sempre não têm eles parte em coisa alguma do que se faz debaixo do sol. (v. 4-6)

Talvez você esteja sofrendo em algum tipo de limbo melancólico de meia-idade; o longo e tenebroso entardecer escuro da alma. Sua vida lhe parece te sobrecarregar. Talvez sua carreira nunca tenha ido além do primeiro degrau da escalada coorporativa. Talvez você esperasse que a essa altura sua conta bancária fosse mais polpuda do que a sua cintura está ficando. Talvez você esperasse mais filhos e menos casamentos. E agora seus óculos bifocais amarelados escorregaram, apenas para revelar a miopia da sua vida como ela é – nauseantemente medíocre.

Talvez a dura verdade desperte uma dissonância na alma, algo que muitas vezes consideramos apenas uma crise de meia idade. Compre um  carro conversível, agende um implante de cabelo e entre na academia; logo você se sentirá melhor. Mas se você estivesse de frente a Salomão, ele talvez dissesse isso sobre sua depressão: “Você está triste porque está consciente. Se a minha vida fosse tão patética quanto a sua, eu também ficaria melancólico. Mas pelo menos você não é um leão empalhado”.

Para aquele que está entre os vivos há esperança; porque mais vale um cão vivo do que um leão morto. 

Você talvez se sinta um perdedor, mas um perdedor vivo ainda é melhor que um sucesso falecido, pois ainda há esperança para o cara que ainda respira. A memória do campeão sepultado está desaparecendo como uma pintura barata sob o sol, mas você tem uma vantagem inestimável – a oportunidade de aproveitar a vida. Enquanto ainda há pulso, ainda há o que fazer para preencher seu árido mundo com vida. Então coma, beba e seja feliz. Vá se lavar, bote roupas novas, um pouco de gel no cabelo, peça um filé mignon e dê um beijo em sua esposa.

Salomão discorre sobre quatro dons que Deus criou para fazer a vida valer a pena ser vivida, não importa o quão fracassado você pense que é.
 
Comida

Vai, pois, come com alegria o teu pão e bebe gostosamente o teu vinho, pois Deus já de antemão se agrada das tuas obras. (v. 7)

Quanto mais eu leio Eclesiastes, mais imagino Salomão como um cara realmente gordo. Ele menciona repetidas vezes que comida e bebida fazem a vida valer a pena. Um cachorro mastigando um brinquedo de borracha é melhor que um leão abatido sendo devorado por vermes. Detalhe: não haverá dietas no Céu. Dietas geralmente são consequências de glutonaria ou irresponsabilidades alimentícias. No Céu Deus há de enxugar cada lágrima causada por dietas.
 
Comunhão

Em todo tempo sejam alvas as tuas vestes, e jamais falte o óleo sobre a tua cabeça. (v. 8)

Em um mundo agrário e empoeirado onde não há detergente, as roupas do dia a dia eram sempre escuras (independente de que cor eram quando novas). Então uma veste limpa, branca, e óleo na cabeça, era a preparação para um encontro, uma festa, um banquete. Nós usamos gel, mousse ou cera. Pessoas antissociais tendem a ser pessoas deprimidas. Quando você menos sente vontade de estar perto de outras pessoas é quando você mais deve fazer uma reserva, passar sua camisa, passar alguma coisa no cabelo e sair com amigos para a glória de Deus. Por quê? Porque um cachorro vivo trotando com seus outros amigos vira-latas é melhor que um leão morto, sozinho em sua tumba.
 
Casamento

Goza a vida com a mulher que amas, todos os dias de tua vida fugaz, os quais Deus te deu debaixo do sol; porque esta é a tua porção nesta vida pelo trabalho com que te afadigaste debaixo do sol. (v. 9)

Um bom casamento é uma figura do céu. Ser solteiro tem suas próprias bênçãos, mas se você está procrastinando para pedir sua namorada em casamento, esperando até que termine de colher tudo que plantou, você está atrasando uma das bênçãos de Deus para sua vida. 

Projetos

Tudo quanto te vier à mão para fazer, faze-o conforme as tuas forças, porque no além, para onde tu vais, não há obra, nem projetos, nem conhecimento, nem sabedoria alguma. (v. 10)

Sabe aquelas listas de coisas para se fazer/ver/comer antes de morrer? Obviamente, você só pode completá-las se está vivo. Salomão diz, pare de enrolar até que você só tenha mais seis meses de vida. Se você tem algum projeto que deseja realizar, “ocupe-se por viver ou ocupe-se por morrer”, citando Stephen King (algo que eu não costumo fazer). Você quer ver o mundo, subir o Monte Everest, ter aulas de culinária, ter um filho, aprender francês? Faça. A vida é curta, e aí você morre.

Mas a chave que dá acesso à maior parte da sabedoria enigmática de Eclesiastes está nos últimos versos.

De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo homem. Porque Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão escondidas, quer sejam boas, quer sejam más. (Eclesiastes 12.13-14)

Sim, comida, comunhão, casamento e projetos são dons de Deus para essa vida, e são coisas boas. Mas elas não são o que te satisfaz. Após uma refeição, você tem azia. Depois de uma festa, alguém precisa lavar a louça. Seu casamento terá altos e baixos. Sua lista do que fazer vai acabar e você ainda sentirá que algo está faltando.

Esses dons são apenas uma trilha de migalhas de pão que Deus deixa para que você siga e o encontre. Ele é o banquete. Se você pensa que as migalhas são para te satisfazer, você se sentirá frustrado e trapaceado. A vida é boa apenas quando você desfruta dos dons de Deus pelo que eles são: sinais que apontam para o Criador e Salvador que te ama, em quem há a verdadeira satisfação para sempre e sempre.
Fonte: Ipródigo

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