11 de fev de 2014

O Evangelho segundo Eu


“Assim, como já vo-lo dissemos, agora de novo também vo-lo digo. Se alguém vos anunciar outro evangelho além do que já recebestes, seja anátema” – Gálatas 1.9
Em meu trabalho, descobri que uma colega é evangélica, membro de uma igreja neopentecostal. Em uma conversa cotidiana, perguntei-lhe de qual versão da Bíblia ela gostava, e tive uma grande surpresa: ela frequenta a igreja há 13 anos e disse não ter uma Bíblia.
Eu perguntei: “e na igreja, como você faz?”, e ela respondeu: “na igreja a gente não usa”.
Muito triste isso, porém é a realidade  de muitas igrejas no cenário evangélico nacional. O local até se denomina “igreja”, mas ao entrar as músicas, a forma do culto e principalmente o sermão não se enquadram nas essências, nos valores da tradição cristã.
Incrivelmente, a Bíblia, quando citada, o é em textos isolados e com interpretações pragmáticas seguidas de segundas intenções. O ambiente é carregado de emoção, de um senso místico e com propósitos mágicos, e lamentavelmente em muitos desses ambientes não se prevalece a verdade,  ou seja, este é o cenário que muitos chamam de “igreja”, porém diante da revelação bíblica podemos chamar esse espaço cúltico de muitos nomes, menos de igreja.
A ênfase de hoje é a prosperidade, é o crescimento, é a vitória. Porém, essas afirmações não se enquadram com a realidade do país, realidade  onde há a injustiça, a corrupção, a fome, a violência, as drogas, tudo o que representa a degradação da vida e dos seres humanos.
Vivemos uma crise de humanização, pois os valores da vida foram trocados pelos valores materiais. Lamentavelmente, a igreja também entrou nesse processo crítico, pois trocou a sua espiritualidade pelo entretenimento, deixando de lado o seu papel de luta pela justiça e pela promoção da vida para se unir aos valores mundanos. Para isso, não mediu esforços para se tornar uma fonte de realização de desejos e favores humanos.
É preciso afirmar aqui que é sim papel da igreja denunciar o  pecado, as injustiças e a degradação da vida humana, pois Jesus afirmou que o verdadeiro pastor dá a vida pelas ovelhas. É triste ver que a igreja, através de suas principais lideranças nacionais, deixa de lado as essências do cristianismo para se unir aos valores do mundo.
Hoje vemos pastores utilizando tempo de tv, rádio para se autopromover e para a realização de seus desejos megalomaníacos, através da nítida exploração da ignorância e da simplicidade do povo evangélico brasileiro. Quando ouço de alguém que frequenta uma igreja neopentecostal há 13 anos que não possui uma Bíblia porque ela não é usada na igreja, além de indignado me vem uma enorme preocupação: que igreja está sendo construída?
Os neopentecostais afirmam que o Brasil será do Senhor Jesus, mas como será se não há a pregação do verdadeiro Evangelho de Cristo?
Paulo nos afirma que a fé vem pelo ouvir, e pelo ouvir do Evangelho. E ainda afirma que como haverá os que creem se não houver os que pregam?
O que vemos hoje é o evangelho segundo o Malafaia, segundo Estevam Hernandes, segundo Valdemiro Santiago, segundo o Renê Terranova, segundo o R. R. Soares, ou seja, o evangelho segundo “eu mesmo”, o evangelho que enaltece personagens, que enaltece os desejos humanos, que tem sede de vaidades, de poder e das glórias humanas.
Isso é facilmente identificável, até mesmo por um leigo, se fizer o simples exercício de analisar as ideias apresentadas por muitos pregadores à luz do texto bíblico.
Porém, é preciso dizer que muitos desses líderes estão desestimulando o povo a ler e principalmente a desenvolver e exercer o seu senso crítico.
Silas Malafaia, em mais um vexame televisivo, trouxe Mike Murdock para afirmar ao povo brasileiro que devemos “negociar com Deus”. Esse é o discurso do evangelho segundo eu mesmo, o evangelho que atribui a Deus o papel de servo e não de Criador e Senhor.
É preciso combater esse evangelho segundo eu mesmo, e é preciso que cada líder, cada cristão tenha um cuidado, pois esse evangelho do Eu é tentador. É preciso que assumamos nosso papel de servos inúteis e venhamos a adotar o discurso de João Batista:
“É necessário que ele cresça e que eu diminua.” – João 3.30
Que tudo o que venhamos fazer em prol do Reino de Deus não renda lucros nem aplausos, mas sim o reconhecimento de que “a causa de não sermos consumidos é que a misericórdia de Deus se renova em nossas vidas todos os dias”.
A Deus, somente a Deus, toda a honra e toda a glória.
Paulo Siqueira

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.