16 de set de 2014

As igrejas e os políticos

Com o início do horário eleitoral, surgem todos os dias em nossas tv’s uma série de candidatos, uns mais exóticos que os outros. Nesse ano, em especial, há um fenômeno curioso: uma enxurrada de títulos eclesiásticos : “pastor”, “missionário”, “bispo”, “profeta”, “cantor” (com seus equivalentes femininos, é claro). Vi um ou outro “padre”, “pai de santo”, mas a esmagadora maioria traz títulos que os vinculam às denominações ditas evangélicas ou protestantes.
Curioso, não? Ou os demais candidatos não têm religião, ou não pretendem se valer de suas religiões para abocanhar uma parte do eleitorado. Como duvido muito que, num país místico e sincrético como o nosso, haja tantos ateus assim, fico com a hipótese de muitos não quererem convencer os eleitores a partir de suas opções religiosas.
Ontem e hoje houve “marchas para Jesus” nas cidades paulistas de Guarulhos e São Caetano do Sul, e claro, havia os candidatos, o apoio da prefeitura, a distribuição de “santinhos”, a presença dos cartazes dos políticos. Mas isso não é nenhuma novidade, pois essas marchas são conhecidas por serem excelentes vitrines eleitorais, ao permitir a indicação de políticos em meio aos $how$ gospel e às palavras de determinação de vitória dos líderes que têm acesso ao palco (ou palanque?).
Eu creio que os cristãos têm todo o direito e dever de discutir política, de estudar os candidatos, de votar em quem acham mais preparados para o cargo. Mas também creio que um líder eclesiástico, ao levar ao púlpito de sua igreja ou evento um candidato, está sutilmente impedindo seus seguidores de discutir política, estudar os candidatos e votar em quem escolherem no final. Por que ter todo esse trabalho, se o “pastor” (ou impastor?) já trouxe alguém pronto? Com certeza é muito mais fácil e conveniente votar em quem nos é indicado, afinal se o camarada fizer bobagem posso dizer: “a culpa é do pastor, que mandou eu votar nele”. E assim, livres de toda a responsabilidade, fazemos a vontade dos nossos líderes religiosos, que por sua vez indicam candidatos apenas após longas negociações, afinal o importante é que, uma vez eleito, tal candidato aja como um “contratado” da igreja, aprovando e rejeitando leis a seu favor, mesmo que em detrimento do restante da população.
Estou mentindo?
À propósito, quais os grandes projetos lançados por políticos evangélicos? Poucos, muito poucos frente à quantidade desses políticos. Infelizmente, quando se fala de “bancada evangélica” nos surge à mente um bando que falta constantemente às sessões (tanto da Câmara como do Senado) e que em grande parte está ligada à escândalos (videsite Transparência Brasil). O que deveria ser uma rara exceção, um político evangélico acusado de corrupção, tem se tornado quase que regra (com poucas mas felizes exceções). Mas não deveria ser o contrário? Esses políticos serem, na maioria, sal e luz nos governos?
Quando penso em “bancada evangélica”, penso num grupo que só vai trabalhar para agir contra o aborto e os direitos dos homossexuais. Fora isso, a grande maioria legisla em causa própria (ou das igrejas das quais receberam mais votos). Isso significa elaborar leis para garantir que igrejas façam barulho à vontade, dar nomes de ruas para líderes gospelliberar terrenos do Estado para igrejasvenda de ruas – com moradores – para a ampliação de mega templos,  e coisas tão importantes para toda a população como essas.  Neste espaço mesmo veiculamos que, em 2010, um deputado ligado a uma denominação evangélica tentou mudar o nome de um importante parque de São Paulo para homenagear seu “chefe” gospel.
E enquanto isso, nada dos políticos da “bancada evangélica” lutando por saúde, moradia, segurança, educação, trabalho, pois não tiveram preparo para isso (apenas para barganhar em prol de suas instituições).
Claro, como já foi dito há (raras) exceções. Por exemplo, o deputado Carlos Bezerra Jr, que se notabilizou pela luta pelo combate ao trabalho escravo.
Algumas coisas precisam ficar muito claras:
- Púlpito é para a pregação das  Boas Novas de Cristo, não para indicação de candidatos a cargos políticos que sejam do agrado dos líderes religiosos;
- Os fiéis das denominações precisam ser motivados a pensar. O fato de terem a opção de escolherem por si só os candidatos ao poder político é um exercício de raciocínio e pensamento, além de lhes trazer a responsabilidade total por seus atos. Sendo responsáveis pelos que colocam no poder, com a prática democrática tenderão a optar pelo melhor, e todo o país (e não apenas a igreja do político eleito) têm a ganhar;
- Os líderes religiosos são vistos por seus seguidores como pessoas confiáveis e sábias (e entre os evangélicos, com superpoderes acima dos demais e advindos diretamente de Deus: a tal da “unção”). Dessa forma, quando um líder religioso “indica” um candidato de cima do seu púlpito, seus seguidores são levados a obedecer tal indicação como se fosse uma “ordem divina”. Então, chega a ser desonesto um líder religioso indicar um candidato. Seria honesto se dissesse claramente: eu os obrigo a votar no tal candidato. Infelizmente, honestidade não é um dos atributos mais lembrados quando se fala de evangélicos;
Fora tudo isso, temos que ter em mente a Jesus Cristo. Ele esteve frente a frente com os principais líderes políticos de Sua comunidade. Até com o poderoso Pôncio Pilatos Jesus teve uns dedinhos de prosa. Porém, em nenhuma ocasião Ele abriu mão de Suas convicções para agradar a políticos e poderosos, ou mesmo tentou barganhar alguma coisa com eles.
Já pensaram como teria sido mais rápida a divulgação do Evangelho se Jesus tivesse se tornado parceiro dos líderes fariseus? E se o fizesse com os líderes romanos então? Muito possivelmente o Evangelho seria pregado em toda a terra já naquele tempo, uma vez que quem mandava em quase todo o mundo era o Império Romano!!!
Parece tolice o que estou dizendo, mas essa é uma das desculpas que levam muitos líderes evangélicos a se mancomunarem com o poder político: levar o Evangelho ao maior número de pessoas. Porém, o poder político pertence ao mundo, e o mundo odeia a mensagem de Cristo. 
Enquanto muitos de nós tentamos nos aproximar do mundo, fazendo marchas festivas, shows gospel, pregações de autoajuda, espetacularização da fé, mercantilização do Sagrado e infiltração nas esferas políticas visando o poderio terreno, os verdadeiros cristãos estão sendo perseguidos pelo mundo, maltratados, torturados, assassinados.
Engana-se quem pensa que o mundo ama a mensagem da Cruz. O mundo ama a mensagem de Mamom, e infelizmente é essa que enche muitos dos púlpitos nos quais vemos candidatos a políticos se exibindo para uma multidão que não sabe que pode pensar por si mesma, e que por isso segue como zumbis aqueles que elegeram como seus intermediários junto ao divino.
Cristãos podem se candidar à política? Sim, se tencionam ser sal e luz naquele lugar. Mas uma escolha deve ser feita: ser político ou ser líder religioso. As duas coisas juntas não dá, pois alguma delas vai ser feita com descaso, com desleixo (vide nossa bancada evangélica). Ou se é Davi ou se é Samuel. Saul tentou ser os dois e se deu muito mal.
Sonho com o dia em que assistirei ao horário político e poderei escolher um candidato por suas propostas e sua história de vida, não por ser influenciada por seu título de “pastor” ou similar. Sonho com o dia em que verei políticos fazendo campanha longe dos púlpitos e eventos religiosos, até por respeito, afinal a pregação do verdadeiro Deus não se mistura com os vis e vãos poderes deste mundo. Sonho com o dia em que a bancada evangélica será reconhecida por ser a mais eficiente e eficaz, por ser aquela que defende o direito de todos, que luta por melhores condições de vida para toda a população e que não tem envolvimento com os escândalos de corrupção que porventura surgirem. Sonho com o dia em que os políticos evangélicos serão exemplo de cidadania e honestidade para todo o Brasil.
Será que estou sonhando demais?
Enquanto sonho, encaro a triste realidade assistindo a mais uma edição do horário eleitoral.
Voltemos ao Evangelho puro e simples,
O $how tem que parar!

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